Dólar despenca para R$ 5,15 com otimismo sobre fim da guerra no Irã
abr, 10 2026
A moeda norte-americana sofreu uma queda brusca contra o real nesta quarta-feira, impulsionada por um sentimento de alívio nos mercados globais. O motivo? A expectativa de que a guerra no Irã esteja com os dias contados. O movimento não foi apenas local; o dólar derreteu globalmente, refletindo a aposta de investidores em um cenário de menor risco geopolítico no Oriente Médio.
A repercussão foi imediata. Logo nas primeiras horas da manhã, a divisa chegou a romper a barreira dos R$ 5,15, atingindo a mínima de R$ 5,1481. No entanto, o ritmo diminuiu ao longo da tarde. Os operadores ficaram em modo de espera, ajustando posições para o pronunciamento de Donald Trump, previsto para as 22 horas (horário de Brasília). No fechamento, o dólar à vista recuou 0,42%, cotado a R$ 5,1566 — o menor patamar desde 27 de fevereiro, véspera dos ataques conjuntos de Estados Unidos e Israel.
O fator Trump e a corrida pelos ativos de risco
Aqui está o ponto central da questão: o mercado está "comprando" a narrativa de que o conflito pode acabar em breve. Donald Trump sugeriu que a guerra poderia terminar em duas ou três semanas, tempo estimado para que os Estados Unidos atinjam seus objetivos estratégicos, como barrar o desenvolvimento de armas atômicas e mísseis balísticos pelo governo iraniano.
Esse otimismo desencadeou uma migração de capital para ativos de risco, beneficiando diretamente moedas de países emergentes. O real, inclusive, tornou-se a estrela do primeiro trimestre de 2026. Com a queda de 6,06% do dólar em relação à nossa moeda no ano, o real assumiu a posição de melhor desempenho entre as divisas mais líquidas do mundo, superando até mesmo moedas fortes.
Mas nem tudo são flores. Alexandre Viotto, que atua como head de banking da EQI Investimentos, trouxe um banho de realidade para a análise. Para ele, há um certo "exagero" no entusiasmo dos investidores. Viotto argumenta que o comportamento de Trump costuma ser errático e, na prática, houve inclusive um aumento no envio de tropas e aeronaves americanas para a região, o que contraria a ideia de um fim iminente.
Impacto no petróleo e indicadores globais
Com a perspectiva de paz, o preço do "ouro negro" também sentiu o golpe. O petróleo recuou pelo segundo dia consecutivo, embora a queda tenha sido mais tímida desta vez. O contrato do WTI para maio fechou em baixa de 1,24% (US$ 1,26), cotado em US$ 100,12 o barril. Já o contrato Brent para junho, que serve de referência para o mercado interno no Brasil, caiu 2,70%, fechando em US$ 101,16 por barril. Mesmo com a baixa, os preços seguem resilientes acima da marca psicológica dos US$ 100.
Para entender a força do dólar no mundo, olhamos para o índice DXY (que mede a moeda contra uma cesta de seis moedas fortes). O indicador operou em queda, recuando cerca de 0,40% e fechando próximo aos 99,600 pontos. Outras moedas emergentes também surfaram a onda, com o peso colombiano e o rublo russo registrando ganhos superiores a 1%.
Fluxo cambial e a saúde do real
Além do cenário externo, dados internos mostram que o Brasil está atraindo capital. Segundo informações do Banco Central, o fluxo cambial total foi positivo em US$ 1,597 bilhão na semana de 23 a 27 de março. O grande motor desse resultado foi o comércio exterior, que injetou US$ 1,495 bilhão na economia brasileira.
Essa entrada de dólares cria um colchão de liquidez que ajuda a segurar a cotação da moeda americana, mesmo em dias de maior volatilidade. Quando somamos o otimismo geopolítico com um fluxo comercial saudável, o real encontra o terreno ideal para se valorizar.
Resumo dos Fatos Principais
- Mínima do dia: R$ 5,1481 (menor nível desde fevereiro).
- Desvalorização semanal: O dólar caiu 1,62% na última semana.
- Desempenho anual: Real é a melhor moeda líquida de 2026 (queda de 6,06% do dólar).
- Petróleo Brent: Fechamento em US$ 101,16 por barril.
- Entrada de capital: US$ 1,597 bilhão no fluxo cambial semanal.
O que esperar para os próximos dias
O mercado agora entra em um jogo de espera. A palavra final (ou a próxima promessa) de Donald Trump será o gatilho para a próxima movimentação. Se a promessa de paz em três semanas se concretizar, podemos ver o dólar testar novos suportes ainda menores. Porém, se novas tensões surgirem no Oriente Médio, o movimento de aversão ao risco pode retornar rapidamente, devolvendo a força à moeda americana.
Investidores devem ficar atentos não apenas ao discurso político, mas também aos próximos dados de inflação nos EUA e às movimentações reais de tropas na região, que servem como o termômetro real do conflito, para além da retórica diplomática.
Perguntas Frequentes
Por que o dólar caiu tanto nesta sessão?
A queda foi provocada principalmente pelo otimismo global após declarações de Donald Trump sugerindo que a guerra no Irã poderia acabar em duas ou três semanas. Isso reduziu a percepção de risco, fazendo com que investidores tirassem dinheiro de moedas seguras (como o dólar) e investissem em ativos de risco e moedas emergentes, como o real.
O que significa o real ser a "melhor moeda" no 1º trimestre?
Isso significa que, entre as moedas com maior volume de negociação no mundo (líquidas), o real foi a que mais se valorizou frente ao dólar. Em 2026, o dólar caiu 6,06% em relação ao real, superando o desempenho de outras moedas fortes e de outros países emergentes.
Qual a relação entre a guerra no Irã e o preço do petróleo?
O Irã é um grande produtor de petróleo e está localizado em uma região estratégica. Quando há guerra, o risco de interrupção no fornecimento global aumenta, elevando os preços. Com a notícia de um possível fim do conflito, esse risco diminui, levando à queda dos preços dos contratos WTI e Brent.
O otimismo do mercado é totalmente seguro?
Não totalmente. Analistas como Alexandre Viotto da EQI Investimentos alertam que o mercado pode estar exagerando. O comportamento de Trump é visto como errático e a realidade no terreno — com aumento de tropas americanas no Oriente Médio — sugere que o conflito ainda pode ter reviravoltas inesperadas.
Como o fluxo cambial do Banco Central influenciou esse cenário?
O fluxo positivo de US$ 1,597 bilhão, vindo principalmente do comércio exterior, mostra que há uma entrada real de dólares no Brasil. Isso aumenta a oferta da moeda americana no mercado interno, o que naturalmente pressiona a cotação do dólar para baixo e fortalece o real.
Caio Magno
abril 10, 2026 AT 18:00A correlação entre a aversão ao risco geopolítico e a migração para ativos de refúgio é clara, mas ignorar o DXY nesse cenário é um erro técnico. O real tá surfando um fluxo comercial positivo, mas a volatilidade implícita ainda é alta demais pra qualquer hedge robusto. Esse gap de liquidez que o BC tá reportando ajuda, mas o carry trade continua sendo a variável que manda no curto prazo.