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SESSÃO CULTURAL DA ASRM: A Santa Casa da Misericórdia de todos nós

Um dos episódios mais tristes e difíceis em seus 218 anos de existência serviu, sobretudo, para mostrar a enorme importância da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre junto à sociedade gaúcha e ao próprio estado rio-grandense. Durante a década de 1980, o complexo hospitalar estava à beira da falência e do sucateamento por falta de recursos financeiros e de um certo descaso institucional. Foi quando em 1982 o cardeal Dom Vicente Scherer assumiu a provedoria e o protagonismo da recuperação. O bispo convocou para a empreitada o ministro da Saúde e ex-governador Jair Soares e o secretário estadual da Saúde e acadêmico Germano Bonow, liderando uma comissão especial de gestores e técnicos do governo do estado, que promoveu um pioneiro planejamento estratégico conduzindo o processo de “ressurreição” da entidade, nas palavras da historiadora Véra Lucia Maciel Barroso, durante a Sessão Cultural promovida pela ASRM nesta terça-feira (09).

Ao focar o período, a atual Coordenadora do Centro Histórico Cultural da Santa Casa lembrou que na enorme onda de esforços coletivos pela recuperação foi, inclusive, lançada uma campanha de arrecadação de verbas com um carnê chamado “Bônus da Vida”, que espalhou-se pelo estado inteiro, conseguindo valores que alavancaram obras de recuperação das unidades hospitalares permitindo hoje ostentar um nível de excelência, que orgulha a todos. A Santa Casa comprovou que é, de fato, de todos nós.

No início da apresentação de “Santa Casa de Misericórdia: origens, trajetórias, singularidades”, Véra Barroso avisou que apresentaria somente “fragmentos dos fragmentos” da riquíssima história completa da instituição que mistura-se intimamente com as trajetórias do estado, de sua capital e de sua gente. “Certamente em cada um dos 497 municípios gaúchos existem pessoas com vínculo indissolúvel com a Santa Casa, como pacientes, usuários de serviços ou profissionais da Saúde”, afirmou, desmembrando um mosaico de fragmentos formado pelas múltiplas atividades da irmandade desde sua fundação em 1803 no RS, mais precisamente desde sua idealização em 1498, pela alma caridosa de Dona Leonor de Portugal, disposta a prestar assistência social e religiosa aos mais pobres e abandonados, crianças enjeitadas, idosos desvalidos, doentes mentais, feridos de guerras.

Um desses fragmentos mais reveladores da responsabilidade social da instituição e do comportamento moral da própria sociedade gaúcha foi a Roda dos Expostos em que recém nascidos de concepções indesejadas foram sigilosamente descartados em um pórtico com roleta externa ao prédio do hospital. Acolhidos e tratados em unidades diferenciadas, os órfãos continuavam sob cuidados da Santa Casa em geral acompanhadas até casarem (as meninas) e servirem às Forças Armadas (os meninos). “Entre os rejeitados, vários sobressaíram-se na fase adulta como a primeira feminista gaúcha, a escritora Luciana de Abreu”, informou a professora.

Certamente foi uma reunião especial que sensibilizou os médicos da ASRM – incluindo a diretora cultural Miriam da Costa Oliveira, particularmente interessada na arte cemiterial, igualmente contemplada pelo valioso patrimônio artístico do cemitério mais antigo da capital.

No ambiente médico da Santa Casa nasceram outros estabelecimentos hospitalares e faculdades de Medicina de Porto Alegre.

A exposição da historiadora pode ser vista, ou revista, na íntegra no YouTube (clique aqui)