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Não é hora de baixar a guarda

|por Brasil Silva Neto*

 

Há um semestre convivemos com algo inimaginável. Quem preveria, na virada do ano, que em março de 2020 estaríamos lidando com uma pandemia, causada por uma doença infectocontagiosa que rapidamente alastrou-se pelo mundo deixando um rastro de mortes, isolamento e a quebra da estrutura socioeconômica, algo sem precedente para esta geração.

Não fomos exceção ao resto do planeta. Apesar de um início mais lento, era esperado que o inverno trouxesse uma aceleração na transmissão comunitária da doença, nas internações hospitalares e óbitos, o que de fato aconteceu. Situação que está sendo combatida com grande dedicação e competência pelas equipes de saúde e demais setores envolvidos. A sociedade permaneceu isolada, restrita profissional e socialmente. Um sistema de saúde organizado e a tríade do distanciamento social, uso de máscaras e higiene de mãos permanecem como as únicas medidas contra uma doença sem tratamento eficaz e sem vacina até o momento.

Pois, pela primeira vez em muito tempo, deparamos com um cenário local de arrefecimento e estabilidade de casos. Quando olhamos para este quadro, é natural que surja o debate sobre a volta à normalidade. Entretanto, o tempo transcorrido é muito curto para determinarmos se há de fato um descenso consistente nas curvas de contágio e internações. Nesse sentido, cada nova medida na direção da retomada deve ser gradual e escalonada, levando em consideração indicadores locais de comportamento da doença e taxa de ocupação dos hospitais.

Por um claro esgotamento de todos na sociedade, a flexibilização está ocorrendo em um cenário que não é o ideal, com hospitais ainda repletos e onde uma nova onda de casos pode pôr o sistema em colapso. É fundamental que se compreenda este contexto. Ainda não é hora de baixar a guarda, de abrir mão dos cuidados básicos de proteção, de desviar o foco. Priorizemos o retorno às atividades produtivas com a devida segurança. Não há razão para celebrações. Evitemos aglomerações desnecessárias.

Todos os países enfrentaram idas e vindas de restrições e novas ondas da doença. Difícil evitá-las, podemos postergá-las e minimizá- las. Isto ajuda todos os setores da sociedade. Para isto precisamos fazer o uso responsável e consciente da nossa liberdade. Em respeito às pessoas próximas, aos que precisam de atendimento médico por outras causas, aos idosos confinados, às crianças sem aulas e alijadas da vida ativa que merecem ter e aos incansáveis profissionais de saúde, a quem devemos muitas vidas salvas.

Precisamos nos cuidar.

 

Artigo publicado originalmente no jornal Zero Hora em 29 de agosto de 2020
*Adjunto cirúrgico da diretoria médica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre | [email protected]