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Análise do novo livro de Armindo Trevisan “Por uma leitura atual da Divina Comédia, de Dante Alighieri” feita pelo acadêmico Prof. Dr. Waldomiro Manfroi

Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina
Projeto Cultural
Coordenadora: Acadêmica Miriam Oliveira
Convidado: Professor e escritor ARMINDO TREVISAN, que falará sobre seu novo livro: POR UMA LEITURA ATUAL DA DIVINA COMÉDIA
COMENTARISTAS: ROGÉRIO XAVIER
WALDOMIRO MANFROI

Sinto-me, extremamente, honrado por estar presente nesta programação cultural da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina para comentar, junto com o poeta Rogério Xavier, a obra do consagrado, escritor, crítico de arte, Armindo Trevisan: Por uma leitura atual da Divina Comédia, de Dante Alighieri.

Mas antes de tecer meus comentários sobre a obra, preciso revelar algumas particularidades da minha relação com o autor.

Ao ser convidado pela acadêmica Miriam Oliveira para participar como comentarista deste encontro, lembrei-me de quando e como conheci Armindo Trevisan. Foi no fim da década de 1980 quando éramos professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tivemos inúmeros encontros em sessões de autógrafos na Feira de Livro de Porto Alegre, da qual ele fora patrono, mas dois encontros afloraram com maior destaque. O primeiro ocorreu, em 2012, quando da celebração do Centenário do lançamento da obra Contos Gauchescos, de Simões Lopes Neto, no Memorial Rio-grandense. Nesse evento, o ilustre escritor Armindo Trevisan elegeu-me para uma conversa particular que durou quase uma hora. Tive o privilégio, então, de fazer uma aprazível viagem por uma das maiores obras literárias brasileiras através da análise do poeta, sua fala como fio de carretel desenrolava-se suavemente. Uma inesquecível lição de literatura e arte.

O segundo foi pouco tempo depois. Eu e minha esposa saímos do cinema de um Shopping de Porto Alegre. O poeta também estava lá e veio ao nosso encontro com a gentileza e o sorriso que lhe são peculiares. Convidou-nos para acompanhá-lo até uma das livrarias – o lançamento de uma obra importante acontecia e nós precisávamos conhecê-la. Era a publicação de Otto Maria Carpeaux intitulada História da Literatura Ocidental. Saímos da livraria com quatro volumes da magnífica obra. Ao ler os capítulos do primeiro volume, percebi que grande parte do que Otto Maria Carpeaux registrava, eu tinha ouvido nas palavras vivas de Armindo Trevisan. Porto Alegre possuía seu Otto Maria Carpeaux, na figura de Armindo Trevisan.

Assim, revelo, sem receio de cometer exageros, que todas as vezes que estive com Armindo Trevisan foram aulas de literatura, história e arte. E de muita sabedoria.

SOBRE O LIVRO ATUAL

E neste encontro com seu novo livro, Por uma leitura atual de a Divina Comédia, de Dante Alighieri, perguntei-me quantas outras lições, nós leitores, teremos?

E a primeira lição surgiu já na introdução, onde o autor apresenta uma lista das traduções brasileiras confiáveis da Divina Comédia. Pois, assim, ele evita que os interessados na leitura da Divina Comédia utilizem obras não recomendáveis. Na primeira página do primeiro capítulo lê-se uma poética e esclarecedora afirmativa: Entre as estrelas fixas da literatura mundial, a luz de Dante Alighieri, autor da Divina Comédia, brilha de modo singular.
E em seguida há outra orientação sobre o contexto da obra: “Neste livro – Por uma leitura atual da Divina Comédia – abordaremos não só a vida de Dante, como também os elementos do seu universo cultural”.

Então, se a boa literatura registra os costumes, as habitações, os alimentos, o vestuário e os sentimentos mais profundos das pessoas, por meio dos cenários e das personagens, teremos a oportunidade de conhecer o perfil social e ideológico de Dante, bem como das personagens que alimentam sua obra e de modo especial a Divina Comédia.
No capítulo, Influência cristã e islâmica na Divina Comédia, Armindo aponta o caminho que percorreu para escrever Por uma leitura atual de a Divina Comédia. Depois de apresentar os documentos que identificam os movimentos religiosos cristãos, islâmicos e, de modo especial, a influência de São Tomás de Aquino sobre as obras de Dante, revela como os críticos literários classificam a Divina Comédia:

Segundo o trabalho de Christian Bec., a Divina Comédia não é obra religiosa. Não é oportuno usar a expressão poeta-teólogo. Na realidade o que Dante fez foi utilizar enunciados da teologia – especificamente no Canto XII do Paraíso pondo o dogma a serviço – não da verdade teológica, mas do belo poético. E Urs von Balthasar, teólogo católico contemporâneo, define exemplarmente o que Dante realizou no seu poema: ”Sendo um leigo, ele transformou a teologia escolástica em teologia existencial”.

Ao chegarmos à página 21, nos deparamos com um conselho de Trevisan que merece ser reproduzido: “Sugerimos aos leitores que nos acompanhem, por meio da imaginação, a uma sala de degustação numa vinícola da França, na Borgonha. Um enólogo virá ao nosso encontro para ensinar-nos a tornar mais receptivo o gosto de nossas pupilas gustativas. Tranquilizem-se: ele acabará por oferecer-nos uma taça de célebre Chateauneuf Du Pape. É desse modo que um indivíduo se alfabetiza na arte de apreciar vinhos. Um bom leitor de poesia deveria dispor-se à semelhante iniciação. Ou seja: admitir que tem muito a aprender em termos de saboreio de vinhos… e de poemas”.
“Mas por que a escolha desse vinho”. Lá adiante, quando surgirem os conflitos papais de Florença, o leitor encontrará a resposta.

Ao chegarmos à página 25, no capítulo O Mundo conturbado e violento em que Dante criou a Divina Comédia, vamos conhecer o ambiente e as condições sociais em que se deu a construção da obra na Florença de 1265. E começamos a leitura com mais um oportuno conselho de Trevisan: “Todo o leitor que se proponha a realizar uma leitura digna de um gênio, principalmente se este gênio for Dante, necessita como pré-condição – para que sua leitura assimilativa e deleitosa – ter diante dos olhos breves informações sobre a vida e a obra do autor. Dado que a biografia a respeito, tanto sobre a pessoa de Dante, como de sua produção literária, é vastíssima – nem sempre acessível ao leitor de língua portuguesa – sugerimos a leitura de História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux”.

Eis, então, uma das afirmativas de Carpeaux:

“É possível ler a Divina Comédia como se fosse uma obra de hoje apesar das mil dificuldades criadas pelas alusões eruditas e políticas. É uma obra viva, capaz de despertar paixão e entusiasmo; porque não é uma epopeia. Entre as grandes obras da literatura universal, às quais a convenção chama epopeia, a Divina Comédia é a única que não tem nada a ver com os modelos antigos”. …

Depois das declarações de Carpeaux, Armindo Trevisan reassume a palavra para nos alertar:
“A esta altura podemos formular uma questão, que a mídia cultural em geral levanta: Por que o público dá a impressão de fugir da leitura de Dante”?

E tenta nos esclarecer com possíveis exemplos: “Creio que não é um desapreço lembrar que o leitor brasileiro não gosta de fazer esforço prévio de leitura, mesmo quando disso lhe resulta deleite. Podemos dizer em tom de brincadeira, que o brasileiro prefere apanhar uma fruta do chão que tombou da árvore a tê-la de apanhar do alto do galho”.

E no final da página, lemos mais um pedido do mestre Trevisan quando afirma: “Portanto, caso queiramos aproveitar o sétimo centenário da morte de Dante (que ocorre no dia 14 de setembro de 2021), para convidar o público ou ao menos os estudantes secundários e universitários do Brasil a se aproximarem do maior gênio das letras do Cânon Ocidental, devemos antes de mais nada, desobstruir o caminho até o Poeta”.

E incita-nos a prosseguir na leitura com mais uma pergunta:
“Por que a Divina Comédia tem o título de Divina”?

E seguindo-o no prazeroso trajeto de seus questionamentos, encontramos adiante a resposta que nos aproxima de outro notável autor florentino, Giovanni Boccacio, que é por nós lembrado agora quando a humanidade se defronta com a terrível pandemia causada pelo Covid-19. Foi este autor que escreveu o Decamerão, registrando, de forma romanesca, a epidemia que grassou em Florença no ano de 1348.

Veremos então o que diz Trevisan na página 29, sobre este ato que alterou o nome da obra de Dante:
“É curioso que esse qualificativo tenha sido dado ao poema de Dante por um grande clássico italiano, Giovanni Boccacio, autor do Decamerão. Acontece que 40 anos depois da morte de Dante, Boccacio foi convidado pelas autoridades de Florença a comentar a obra de Dante, numa igreja. Ele estava tão fascinado pela que lia que resolveu associar o adjetivo Divina”.

Ao ler certas passagens no Decamerão, do escritor Giovani Boccacio, o leitor encontrará mais razões que justificam a escolha do título para a atual obra de Trevisan: Por uma leitura atual da Divina Comédia. Dentre as similitudes com fatos atuais, há descrição de dez pessoas que se isolaram para evitar o contágio da epidemia que se alastrava em Florença, em 1348. Tudo muito parecido com o que ocorre hoje com a pandemia do Covid-19.

Mas, logo adiante, na página 30, o leitor depara-se com mais uma surpresa, ao ler: “Portanto, fica difícil entender que a Divina Comédia tenha sido esnobada durante muito tempo, não só no Brasil, mas praticamente em todas as nações cultas da Europa. Maior estupor causará descobrir aquilo que uma especialista do nosso tempo, Jacqueline Risser, autora de uma nova tradução da Divina Comédia, em francês, revelou numa biografia recente de Dante”:
“Vida de Dante pasmosamente misteriosa: quase nenhum documento sobre sua pessoa(…). Nenhuma página, nenhuma linha sobre a Divina Comédia, ou sobre as suas outras obras que tenha chegado até nós. Nenhum manuscrito de gênero algum, nenhuma de suas cartas. Não se conhece sua escrita: o nome Dante Alaghary, que aparece apenas uma vez nos registros da cidade de Florença, não foi registrado por Dante, mas por um funcionário (da Comuna) que transcrevia em 1302 a lista dos condenados à morte pelo novo governo Guelfos Negros. (…). Nada se sabe sobre episódios inteiros de sua existência. Teria Dante feito uma viagem a Paris? Em qual época e com que finalidade? Esteve apaixonado por uma mulher da cidade de Lucca? Em que sentido deve ser interpretado seu extravio (sua volubilidade amorosa) que os amigos lhe reprovaram após a morte de Beatriz? E a própria Beatriz quem era? Uma alegoria da teologia ou do intelecto possível, ou uma pequena vizinha do bairro encontrada na infância? … Sem dúvida, a partir da idade de 37 anos, sua vida é de um exilado, sem estabilidade: sem casa, sem fixação local. Não obstante, desde a sua juventude, ele foi um poeta reconhecido em Florença e durante alguns anos, cidadão de destaque. Esperaríamos ter informações diretas ao menos sobre esse período em que Dante foi socialmente ativo. Acontece que a maioria dos arquivos de Florença correspondentes a esse período foram queimados (…).

Sobre este capítulo da ausência de leitores durante séculos das obras de Dante, o próprio título da atual obra de Trevisan, nos faz refletir sobre o porquê desta feliz escolha: Por uma leitura atual da Divina Comédia. Vejamos então onde pode se situar a releitura atual da obra. Sobre a não existência de leitores podemos inferir que a Ciência e a Literatura não fogem ao julgamento de um determinante comum: a aceitação da época. Como sabemos, a resistência ao novo nasceu com a humanidade. E se mantém porque é uma característica humana. E ela se manifesta contra a ciência e contra a literatura, na mesma proporção. Na literatura, temos alguns exemplos locais e mundiais que vêm ao encontro dessa realidade. Os dois romances do médico e escritor gaúcho, José do Vale Caldre e Fião, A Divina Pastora e o Corsário, publicados respectivamente em 1847 e 1849, pelo fato de o autor ser ferrenho abolicionista e posicionar-se contra a Guerra dos Farrapos, os dois livros sumiram das livrarias e das bancas brasileiras por 140 anos. Foram salvos pelos exemplares encontrados na Biblioteca Nacional do Uruguai. Na França, quando Gustave Flaubert, publicou em 1857, o romance, Madame Bovary, foi processado. Tudo porque a narrativa contava a história de uma mulher casada que se entregava a sucessivos casos de adultério para fugir da vida medíocre que julgava levar ao lado do marido, um médico de província. O romance, que termina com o suicídio de Bovary, causou escândalo na França. Flaubert é acusado de imoralidade e processado. O tribunal quer saber quem é a mulher. Flaubert responde então: Madame Bovary sou eu.

Sobre resistência ao novo na ciência, veremos que isso é muito antigo e bastante atual. Quando Edward Jenner descobriu a vacina contra a varíola em 1789, os que se opunham à vacinação argumentavam e distribuíam volantes nos quais afirmavam que se os pais vacinassem seus filhos, eles apresentariam feições de boi, tumores surgiriam em suas cabeças, indicando os locais dos chifres. Toda a fisionomia, com o passar dos anos se transformaria, pouco a pouco, em fisionomia de vaca e a voz em mugido. A vacinação obrigatória contra a varíola, proposta por Oswaldo Cruz, provocou violenta reação popular no Rio de Janeiro, em 1904, conhecida como a Revolta da Vacina. E os panfletos distribuídos pelos que eram contra a vacina continham os mesmos dizeres que os contrários usaram, mundo afora, desde 1789.

E o que dizem os negacionistas da ciência hoje, em plena vigência da pandemia causada pelo Covid-19? É uma doença banal que não precisa de cuidados especiais, de isolamento, de uso de máscara e de vacina.
E sobre a influência política na releitura da obra da Divina Comédia de Dante nas páginas 32 a 41, Armindo Trevisan, com olhar de arguto pesquisador, nos apresenta mais uma característica que influenciava as particularidades dos temas literários de Florença de então: os conflitos sociais, os conflitos causados pelos papas e o surgimento de um novo extrato social, a burguesia. Veremos que a partir de uma bucólica festa patrocinada pelo alcaide a seus súditos ricos surge um desentendimento de palavra dada o qual deságua na formação, inicialmente de dois grupos rivais que, mais tarde, se tronam dois partidos: O Partido dos Guelfos Brancos e o Partido dos Guelfos Negros. Partidos que se difundiram pela Itália e que se digladiavam ferozmente. Quando um assumia o poder, determinava a destruição das propriedades do vencido e condenava à morte seus líderes. E, para aumentar os conflitos de Florença, surge em cena o despótico Papa Bonifácio VIII, sucedido por outro Papa também déspota, Inocêncio III. As sucessivas crises políticas provocadas por esses dois líderes religiosos culminaram com a expulsão dos papas para a França. Desse episódio é que surgiu o nome do vinho recomendado por Trevisan de como o leitor deve ler a Divina Comédia. E sendo Dante um poeta muito atuante, não só nas Escolas Poéticas de Florença, mas também nas questões políticas locais, acabou por ser exilado. E, pelo fato de seu nome constar na lista dos condenados à morte, infere-se que ele pode ter sido condenado, sem ser executado.

Ao lermos a obra em questão, veremos onde e por que são colocadas muitas personagens da época na fabulosa viagem que Dante faz no mundo dos mortos. Sobre os dois papas despóticos da época, Dante lhes destina um local que parece adequado: o inferno.

Mas, além dos conflitos políticos Trevisan decide nos mostrar as origens poéticas da época que construíram o caminho até surgir a monumental obra de Dante, a Divina Comédia. E começa então pelo que faziam os trovadores e o menestrel, o trovador e o jogral. “Na Idade Média, dava-se o nome de trovador ao poeta que compunha a música e escrevia a letra de canções amorosas, ou satíricas. O trovador era, normalmente, pessoa culta fidalgo ou rei. O trovador distinguia-se do jogral, um cantor ou músico que se deslocava de corte em corte, de castelo em castelo, de santuário em santuário. Cantava, quase sempre, versos alheios. Sendo plebeu, vivia dessa oralidade lúdica exercendo, quando a ocasião exigisse, também papel histriônico ou acrobata. O segundo movimento, surgiu na Itália no século XII através do núcleo intitulado O Dolce Stil Nuovo no tempo que os poetas religiosos eram numerosos. Eram poesias musicais, frequentemente, usadas nas procissões populares e os poetas consideravam-se mensageiros da vida religiosa. Dois autores destacaram-se nesse gênero. O primeiro, São Francisco de Assis (1182-1226), que compôs as Laudes Creaturarum ou Canto das Criaturas”.

O outro autor, foi Jacopone da Todi, o leitor verá que dada sua inusitada trajetória de homem rico que, depois de tornar-se advogado famoso, decidiu doar todos seus bens para os pobres e pediu para ser admitido como frade leigo na Ordem Franciscana. O leitor seguindo em frente saberá como esses autores traçaram o percurso para a construção das Escolas Poéticas que influenciaram a criação das obras de Dante.

Comparando-se os conflitos existentes em Florença, nesse distante período, com as duas correntes antagônicas existentes no Brasil de hoje, a releitura da Divina Comédia nos permite perguntar: qual será a consequência desse nosso antagonismo atual?

E ao chegarmos à página 56, onde há o destaque: O primeiro livro de Dante: Vita Nuova, vamos conhecer a enigmática musa que inspirou o poeta a escrever seus primeiros versos: Beatriz.

… “Não resta dúvidas de que Dante estava ansioso para chamar a atenção sobre si. Um fato singular deu-lhe necessária coragem para associar-se aos poetas de sua cidade. Nas primeiras páginas do livro Dante relata seu primeiro encontro na infância com Beatriz. Esta tinha oito anos, e ele nove. Dante conheceu-a ao participar de uma festa de Primeiro de Maio na casa de Beatriz”.

A partir desse registro, Armindo reproduz as palavras que traduzem o que poderíamos chamar de paixão à primeira vista. Beatriz aparece no silêncio de seu isolamento e de seus sonhos. Por fim, Dante traduz em sonetos todo seu encanto pela menina Beatriz e os envia para dois poetas já consagrados: Guido Cavalcanti e Dante Maiano.

Em cada alma gentil, presa de ardor,
Que tomar ciência do dizer presente
Para que me escreva parecer urgente,
saúde o seu senhor, isto é, Amor.

Eram três horas e um fatal fulgor
Havia em cada estrela resplendente,
Quando surgiu Amor subitamente,
Cuja essência lembrar-me dá horror

Alegre Amor me parecia, tendo
Meu coração; e nos seus braços ia,
Envolta, minha amada adormecida.

Quando a acordou, do coração ardendo,
medrosa, humildemente ela comia;
e ele chorava, desaparecendo.

 

De Cavalcanti, recebe um breve, mas animador retorno: Vedeste, al mio parere, omne valore (Viste, a mim parece, tudo o que há de valor).

Ou seja: tendo visto “o Deus do Amor dizia Cavalcanti -, viste o que havia de melhor, todas as virtudes morais e intelectuais encarnadas numa única figura. “Era um belo elogio, vindo de quem era considerado o poeta florentino mais brilhante do `novo estilo`, uma das personalidades mais marcantes da cidade”, nos esclarece Armindo.
Do poeta Dante Mariano, Dante Alighieri recebeu uma crítica sagaz e brincalhona: “Como se estivesse parodiando um conselho médico, sugeriu ao seu jovem homônimo que desse uma boa lavada nos testículos para ver se isso lhe clareava a mente: caso não desse efeito, sugeria que Dante procurasse um médico e fizesse um exame de urina, diagnosticando sua condição sexual patológica”.

Nosso poeta Trevisan complementa: “Ao que parece, Dante não deu muita importância ao soneto de Maiano. Deu dez vezes mais importância ao soneto que lhe enviou Cavalcanti, cujo primeiro quarteto mostrava grande respeito por ele”:

Viste, segundo penso, todo o vigor,
A alegria e o bem que um homem sente,
Posto a provas pelo senhor valente,
que é quem domina o mundo do valor.

Ao tornar públicos seus versos, o poeta Dante Alighieri começa, então, a ser reconhecido e aceito pelos seus pares.
E, ao chegarmos à página 167, consta-se que o nosso poeta aproveita a ocasião para expressar mais uma característica pessoal genuína: sua generosidade. Diz ele: “Num de seus momentos de sutil ironia, o poeta Mário Quintana escreveu”: Há anos venho procurando esta raridade bibliográfica: uma edição da Divina Comédia sem comentários. Raridade? Creio que nem existe maravilha assim…

E acrescenta Armindo Trevisan:
─ Concordamos com Mário Quintana. Dante foi submetido excessivamente às lentes dos eruditos.
Então, depois da prazerosa leitura deste ensaio de Armindo Trevisan, percebi que ele faz parte de um grupo de intelectuais do mundo que veem a Literatura como algo muito importante no mundo moderno, assim como a define Edgar Morin, em seu livro CABEÇA BEM-FEITA, publicado em 2004:

…”A longa tradição dos ensaios, próprio de nossa cultura, desde Erasmo, Maquiavel, Montaigne, L Bruyère, La Rochefoucauld, Diderot e até Camus e Bataille outros – constitui uma farta contribuição reflexiva sobre a condição humana. Mas também o romance e o cinema oferecem-nos o que é invisível nas ciências humanas; estas ocultam ou dissolvem os caracteres existenciais, subjetivos, afetivo do ser humano que vive suas paixões, seus amores, seus ódios, seus envolvimentos, seus delírios, suas felicidades, suas infelicidades, com boa e má sorte, enganos, traições, imprevistos, destino, fatalidade… São o romance e o filme que põem à mostra as relações do ser humano com o outro, com a sociedade e com o mundo…

A poesia, que faz parte da literatura e, ao mesmo tempo, é mais que a literatura, leva-nos à dimensão poética da existência humana. Revela que habitamos a Terra, não só prosaicamente, sujeitos à utilidade e à funcionalidade, mas também, poeticamente, destinados ao deslumbramento, ao amor, ao êxtase. Pelo poder da linguagem, a poesia nos põe em comunicação com o mistério, que está além do dizível”.

Resta-me dizer ao mestre Armindo Trevisan muito obrigado por mais uma bela lição de literatura, de humanismo e de arte. E, ao lembrar de uma das suas citações em Por uma leitura atual da divina Comédia, atrevo-me a acrescentar: se Napoleão lamentava pelo fato de a França não ter produzido um Dante Alighieri, Porto Alegre, deve se sentir feliz, por ter um Dante nas obras de Armindo Trevisan.

Porto Alegre, 8 de junho de 2021
Waldomiro Manfroi
Ocupante da Cadeira 58, cujo Patrono é o Prof. Raul Moreira.