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O desafio da incorporação de novas tecnologias na saúde

| por ROGÉRIO SARMENTO-LEITE*

 

A pandemia da covid-19 e suas implicações sociais e econômicas têm exposto os sistemas de saúde público e privado como nunca antes visto.

Diariamente, nos meios de comunicação redes sociais e em simples conversas deparamos com os “milagres” da medicina moderna e, ao mesmo tempo, com as mazelas e crueldades de um sistema que nem sempre é justo ou acessível a todos.

Do atendimento ambulatorial a uma grande cirurgia, uma rede de pessoas, materiais e insumos se faz indispensável. Sempre guiadas pelas melhores evidências científicas possíveis, as equipes de saúde buscam oferecer o que for mais eficaz e efetivo aos pacientes. E estes, obviamente, o que for melhor, menos invasivo e indolor a si. Assim, retirar uma “vesícula biliar com pedras” sem precisar “abrir a barriga” é muito melhor quando indicado for! Da mesma forma, corrigir um “defeito no coração” sem a necessidade de “abrir o peito”. Isto é possível e viável quando bem avaliado e realizado por profissionais certificados e qualificados. Mas, um elemento é fundamental. A tecnologia! Cara, complexa e que perfaz longo caminho para ser desenvolvida, testada e empregada na rotina. Só que alguém terá que pagar esta conta! O doente, o SUS ou a saúde suplementar. E quem determina isso? Normalmente se faz através do Ministério da Saúde e suas agências reguladoras. A cardiologia brasileira recebeu, em 2021, com muita alegria a incorporação do Tavi (Implante Transcateter Valvar Aórtico) no novo rol publicado pela Agência Nacional de Saúde (ANS) e que determina o que as principais operadoras devem custear ou não. Agora, idosos frágeis e sem adequadas condições cirúrgicas e que sofrem de estenose aórtica (estreitamento de uma das principais válvulas do coração), uma doença frequente, incapacitante e potencialmente fatal, poderão ser beneficiados por um procedimento minimamente invasivo, de risco menor e de elevado sucesso. Espera-se que esta técnica revolucionária e já disponível em nosso meio também possa se estender para a rede pública e a todos indivíduos que preencham os adequados critérios clínicos e anatômicos. Os desafios para a incorporação de novas tecnologias são imensos. Mas, quando a ciência, o bom senso e a discussão colegiada andam juntas, os objetivos são mais facilmente alcançados e quem mais ganha com isso sempre é o cidadão e a sociedade de uma forma geral.

 

* Médico cardiologista e professor universitário. Diretor da Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista
Artigo publicado originalmente no jornal Zero Hora em 29 de março de 2021