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Reflexões em tempos de pandemia

| por Nilson Luiz May

 

A expressão francesa par hasard[1] dá sentido exato, ou de melhor significância, ao que pode acontecer “por acaso”. Pois, justamente enquanto eu escrevia o epílogo do livro Liderança Duradoura, quis o destino ou a casualidade, que a superfície daquele terço do planeta ocupada por terras se transformasse num campo minado, graças a um vírus denominado Novo Corona, ou conforme nomenclatura científica, SARS-CoV-2.[2]  Resolvi, então, no período de isolamento (que não antevia tão longo), escrever essas reflexões, com as devidas referências. Pensei que não deveria perder a oportunidade de expor o que penso sobre os momentos que estamos vivendo. Afinal, teria o tempo necessário e propício para desenvolver o pensamento e estimular a criação.  Desde que o vírus não me impedisse levar avante esta missão.

Comecemos por lembrar os diversos filmes sobre o assunto[3]. Todos com histórias relacionadas a epidemias que nascem em povoados e cantões e progressivamente espalham-se pelo globo terrestre. À medida que o vírus mortal progride, as multidões apavoradas, confusas, enlouquecidas, histéricas até, invadem mercados, postos de gasolina, farmácias, lojas, em busca de comida, roupa, água, remédios e fogem pelas estradas. Os carros atropelando pessoas, batendo-se as latarias em busca de refúgio (talvez no alto das montanhas ou na solidão dos campos). O primeiro tiro nalgum infectado que se aproxima desencadeia a matança generalizada no sentido de proteger a família. Ao final, só o “mocinho”, a companheira e filhos conseguem escapar. Sempre tem um pai, mãe ou avô que perece pelo caminho e – mesmo com sentimento de culpa dos demais sobreviventes, que tentam carregá-lo – acaba sendo abandonado num canto do trajeto, em posição confortável, esperando a morte. Os governos de todos os países, mesmo com distinções ideológicas, unem-se para combater essa “peste” disseminada que avança a passos largos, na tentativa de descobrir alguma cura para o mal que afeta as pessoas. Qualquer notícia (considerando que no filme estão numa era de tecnologia globalizada, muito avançada, e a comunicação faz-se em minutos por diversos veículos de alcance universal) espalha-se numa rapidez instantânea. Todos – pobres, ricos, favelados (sim, ainda são muitos), presidiários, operários, doutores, jovens e velhos – sentem-se imediatamente informados sobre tudo o que se passa, à distância de uma volta pelo globo. E nós, cinéfilos, espectadores da segunda década do Século XXI, torcemos para que os personagens mais destacados consigam chegar ao abrigo seguro.

Saindo da narrativa ficcional, voltemos à realidade da era atual. Nas longínquas terras da China,[4] um país lendário, às margens do rio Yang Tsé, existe uma cidade chamada Wuhan, a sétima maior do país, capital da Província de Hubei e que, mesmo com seus 11 milhões de habitantes era por nós desconhecida. Soube-se depois que a população dos cantões que a rodeiam tem por hábito, de cultura milenar, buscar suas carnes em mercados de pouca higiene, de piso sujo e molhado de sangue, onde são negociados  animais silvestres vivos e cortados em frente aos compradores. Neste ambiente de pouca higiene surgiu  um organismo microscópico que expande-se como se fosse um exército de combatentes… trilhões… quinquilhões… duodecilhões…de inimigos  alastrando-se pelo planeta, levados pelos viajantes internacionais. Como ondas de poeira que aderem nas mãos, nas roupas, nos metais. Essa hercúlea força leva enorme vantagem sobre os poucos oito bilhões de seres humanos que constituem a assim chamada civilização terráquea, pois não se pode vê-los, não se pode tocá-los, não se pode atingi-los, nem com as armas nucleares à disposição das grandes potências. E a partir de  então, instituiu-se o caos: isolamento das pessoas nas suas casas, fechamento das estradas, das empresas e dos negócios em todos os ramos, estatísticas comparativas de contaminados e de percentuais de mortes, polêmicas sobre as medidas impostas, hospitais de campanha em campos de futebol, falta de medicamentos, de álcool gel, de máscaras, e corruptos aproveitadores buscando ganhos fáceis sobre a desgraça dos derrotados. Tudo isso demonstrando que a vida é que imita a ficção.

 

George Friedman, fundador da Stratfor[5], a maior empresa do setor de inteligência do mundo, lançou um livro, em 2011, com o título Os próximos 100 anos: uma previsão para o século XXI.  Na introdução, apresenta-nos uma retrospectiva baseada em dados concretos de rememoração histórica. Diz ele (em resumo):

… no verão de 1900, Londres era a capital do mundo e a Europa, próspera e pacífica, dominava o Hemisfério Ocidental e o futuro parecia definido…

… no verão de 1920, a Europa estava destruída por uma guerra devastadora; o continente em pedaços;  o comunismo instalado na Rússia e a Alemanha subjugada e humilhada…

… no verão de 1940, a Alemanha se reergue, conquista a França e tenta dominar o continente europeu. O Nazismo de Hitler predomina…

… no verão de 1960, a Alemanha está derrotada de novo, dividida entre os países aliados, e os Estados Unidos aparecem como superpotência mundial…

… no verão de 1980, os Estados Unidos são derrotados pelo Vietnã do Norte, um pequeno país de governo comunista, numa guerra que durou 7 anos…

… no verão de 2000, a China, comunista na política governamental e capitalista na economia, cresce na presença entre os mais prósperos países do mundo. O ambiente universal era de paz e prosperidade…

E aí veio o 11 de setembro de 2001.

Um fundamentalista, fanático e determinado terrorista, escondido em meio à poeira das cavernas e montanhas do Afeganistão e países vizinhos, consegue atingir o cerne do capitalismo mundial, numa elaborada e bem planejada ação de um grupo de 19 jovens que se apresentam para o sacrifício suicida, lançando-se contra as Torres Gêmeas[6], símbolos da riqueza norte-americana, levando consigo milhares de cidadãos no decorrer de algumas poucas horas de tragédia. Quebra-se, também, a garantia histórica de não invasão do território norte-americano por forças inimigas, no decorrer de quase dois séculos. A assertiva cai por terra, desaba tal qual os dois gigantes do World Trade Center.

Agora podemos acrescentar :

… no verão de 2020, onde tudo parecia encaminhar-se para um futuro de abastança, o planeta é assolado por uma epidemia global.

Na continuidade de suas considerações, Friedman também diz: “em se tratando de prever o futuro, a única certeza é que o senso comum vai estar errado; não existe um ciclo mágico de vinte anos; não existe uma força que determine um padrão.” E complementa: “aquelas coisas que parecem tão estáveis e tão indiscutíveis em qualquer momento da História, podem mudar com rapidez impressionante”. Ou seja, totalmente sintonizado – nesta área do pensamento – aos conceitos defendidos por Zygmund Bauman[7], expostos em capítulo do meu livro[8].

Há alguma diferença entre essas afirmações em relação a Bauman, quando esse afirma que a modernidade líquida é transitória, desmancha-se no ar? E que tudo é passível de rápida modificação; o que vale para hoje pode já não ser útil amanhã?  Portanto – concluo eu – como planejar nossas ações – administrativas, empresariais, familiares – para os próximos 10 ou 20 anos? E digo mais, como planejá-las para o próximo ano, ou sequer para o semestre que virá? Relembrem Friedman: o mundo vivia numa era de paz e prosperidade e aí veio o 11 de setembro. O mesmo pode-se dizer agora. As nações pareciam avançar em crescimento econômico, tecnologia, viagens internacionais, aviões lotados, inovações, startups, relacionamentos entre as potências mundiais. O Brasil apresentava-se com inflação baixa, taxa Selic caindo a cada reunião do Copom, as empresas em franca expansão, as negociações com a China em evolução, e aí cai uma das dez pragas bíblicas sobre o planeta[9]. E o 11 de setembro ou a crise de 2008, que eram considerados marcos regulatórios negativos de nossa História, passam a ser apenas minúsculos eventos em repercussão diante da magnitude sanitária e econômica provocada por esses organismos invisíveis, expansivos, mortais e deletérios.

Os avanços tecnológicos que capacitaram cientistas e pesquisadores a encontrar soluções quase mágicas, possibilitando o avanço em centenas de inovações de todos os setores que envolvem o bem-estar da humanidade, não foram capazes de debelar a disseminação da praga virótica, tampouco diminuir o índice de sua mortalidade. O megaempresário Bill Gates[10] afirmou, certa ocasião, que “ a sociedade tem investido muito dinheiro em detonadores nucleares, mas pouco em sistemas capazes de evitar epidemias provocadas por vírus que se disseminam com facilidade, inclusive como perigo de ameaça ligada ao bioterrorismo.”

Na área da Medicina, por exemplo, o uso do tomógrafo[11] representou um grande passo para a melhoria dos diagnósticos e, por consequência, do tratamento precoce das patologias ali detectadas. No caso da pandemia, contudo, a tomografia serve apenas para mostrar a tipicidade característica do mal pelo aspecto de pulmões em vidro fosco, o que caracteriza a doença, mas que, de toda forma, em não existindo um agente bactericida ou medicamento antivirótico que debele a progressão, a manutenção da vida do paciente dependerá de recursos ainda primários. Para esse mal, de nada adiantam as ressonâncias magnéticas, a robótica, a medicina nuclear, os antibióticos de undécima geração, os quimioterápicos. Alguma esperança inicial (logo desfeita) – por ironia – acabou sendo depositada num “velho sal medicamentoso” ainda utilizado para o tratamento da malária[12], de cuja existência as civilizações dos grandes centros pouco ouviram falar. Assim se comporta a modernidade líquida. Repleta de surpresas e de excentricidades. Sempre a narrativa da vida imitando a narrativa de imaginação.

George Orwell[13] admirava a capacidade imaginativa de H.G. Wells[14] mas desprezava a ideia de que fosse possível criar o Paraíso na Terra pela engenharia social e avanços tecnológicos. Na visão de Orwell, uma “utopia da vida real” seria insuportável e chata e com mais probabilidade desumanizadora[15].

A liderança é condição insubstituível para o direcionamento das ações e no encaminhamento de soluções ou, pelo menos, para a redução do avanço da calamidade. O líder está ao alto da montanha, ditando condutas a serem seguidas pela população. Na ausência de líder, a turba torna-se caótica, histérica, solta e avulsa, para agir por conta própria. Sem o comando necessário, as pessoas tornam-se inimigas no desespero. Combatem entre si pelo álcool gel, pelas máscaras, luvas, medicamentos, reduzem-se ao homem lobo do homem.

Portanto, acabamos voltando ao tema da liderança. Fred Greenstein[16], cientista político americano, afirma que “sendo a liderança uma qualidade de nascença, que certos indivíduos têm e outros não, alguns líderes só apresentam esta vocação quando enfrentam uma situação-limite”. Então: existirá alguma forma diversa de exercer a liderança nesses inesperados tempos de crise, diferente no cerne e no âmago, do que a manutenção dos princípios e valores aqui nominados? A modernidade líquida não pode prescindir da liderança sólida!  E no aparente paradoxo verbal encontra-se o caminho da verdade.  Nunca, pelo menos neste século, tivemos tantos argumentos reais para valorizar a pessoa como fonte de toda a esperança.

Cientistas, pesquisadores, infectologistas, médicos e técnicos de saúde pública e privada, intensivistas das Unidades de Tratamento, pessoal da limpeza dos hospitais e das ruas, plantonistas de todos os setores, motoristas e caminhoneiros, caixas e auxiliares de armazéns e supermercados, recepcionistas, policiais, brigadas de segurança –  muitos dos quais relegados ao anonimato e à desvalorização social –  transformam-se em heróis na era da luta pela sobrevivência.

Devemos ser progressivos, inovadores, usar a ciência e os avanços da tecnologia ao máximo, sempre sob o comando do homem, o qual jamais poderá ceder em seu poder de dominar a máquina  tornando-se seu escravo. Disse, certa ocasião, Jorge Luís Borges[17]:  julgo-me isento de qualquer modernidade, de qualquer ilusão de que o passado difere do presente e de que este diferirá do amanhã.  Não foi preciso esperar por um futuro muito longínquo para confirmar essa assertiva. O centro das decisões deve estar na pessoa, nos seus valores e princípios, na manutenção decisiva de sua liderança.

 

 

 

 

 

 

[1] A expressão também pode ser usada para dizer “por acidente, à sorte, por coincidência, por casualidade”.

[2] O SARS-CoV-2 (Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2), por seu potencial de desencadear uma Síndrome Respiratória Aguda – que vem acontecendo na atual Pandemia – tem a sigla simplificada de COVID-19, porque foi identificada na China, ao final de 2019. Apesar de pertencer ao mesmo grupo dos “coronas”, tem estrutura molecular mais complexa. Mesmo assim, conforme a OMS, a maioria dos portadores são assintomáticos, embora possam transmitir a infecção aos demais. O quadro clínico, quando instalado, é mais grave do aquele provocado pelo corona “velho”, por isso também foi denominado de Novo Corona.

[3] Só para citar alguns: “A Travessia de Cassandra” (1976),“Epidemia” (1995), “Ensaio sobre a cegueira” (2008), “Contágio” (2011), “A gripe”(2013).

[4] República Popular da China. Em torno de 1,4 bilhão de habitantes. Desde sua fundação, em 1949,  e por quase 30 anos, esteve sob o inflexível comando de seu primeiro presidente, o político e revolucionário Mao Tsé-Tung ( 1893-1976), autor do assim chamado Livrinho Vermelho, nas mãos de todos os chineses. A título de curiosidade: o autor teve a rara oportunidade de adquirir, no México, uma edição de 1970, em espanhol, impressa na própria República Chinesa. Ali, Mao – também grande teórico revolucionário -expõe as estratégias da guerra chinesa , de como aniquilar as unidades inimigas, de tática de guerrilhas contra o Japão e de como manter uma guerra prolongada até a vitória final. Hoje, a China está no grupo das grandes potências, um país com dois estilos de governo: politicamente centralizado no regime comunista e, na economia, um sistema de livre mercado de capitais.

[5] George Friedman (1949-). Cientista político, nascido na Hungria, hoje cidadão americano. Atual Presidente da Geopolitical Futures, publicação que analisa e prevê o curso de eventos globais. Recentemente – quando o SARS-CoV-2 já começava a circular na Ásia – depois de adiar seis vezes ,  lançou O novo século americano: crise, resistência e futuro, cujo título foi alterado , no início deste ano, para A tempestade antes da calma: a crise vindoura dos 2020, ( já à venda em e-book, no original The storm before the calm). A Geopolitical também oferece Coronavirus  Collected Works.

[6] World Trade Center. Portentosa construção de um complexo de 7 edifícios no centro de Manhattan, Nova Iorque, e caracterizada pelas Torres Gêmeas; inauguradas em 1973 e destruída pelos ataques de 11 de setembro de 2001. Osama Bin Laden -o mentor  do feito que atingiu o cérebro do território americano – e a evolução da tragédia e de suas consequências é muito bem conhecida.

[7] Zygmund Bauman (1925-2017). Sociólogo polonês que refletiu e estudou a Pós-Modernidade, tornando-se conhecido no Brasil – onde tem mais de 30 obras traduzidas – pelo sucesso de seu livro Modernidade Líquida, lançado em 2000. Partindo dos conceitos de que na era atual “as relações escorrem pelos vãos dos dedos”, “ tudo é temporário, incapaz de manter a solidez e, como os fluidos, se movem, escorrem, esvaem-se”, ”as amizades não são mais de aproximação física, mas sim virtuais, em redes”, o que, por consequência,  causa angústia, violência, temor de desemprego, de desatualização pela rapidez das mudanças. Crítico mordaz do consumismo pós-moderno, também teve ampla repercussão o seu livro O mal estar da pós-modernidade (1997).

[8] Ver Liderança Duradoura, Editora Scriptum Produções Culturais, 2020.

[9] As Dez Pragas do Egito. Referidas na Bíblia ( Livro do Êxodo, capítulos 7 a 12) como um castigo infligido por Deus a fim de convencer o Faraó Ramsés II a libertar os hebreus da escravidão. Dentre elas estão invasões de rãs, piolhos, moscas, gafanhotos, chuva de pedras e transformação das águas límpidas do rio Nilo em sanguinolentas.

[10] William H. Gates III (1955-). Magnata e empresário americano, fundador da Microsoft.

[11] Tomógrafo. Ambrose e Hounsfield, em 1972, criaram um novo método diagnóstico, utilizando  cálculos computadorizados e tela com pontos luminosos ,baseando-se na técnica de Raios-X, descoberta por Wilhelm Roentgen em 1895.

[12] Malária (maus ares). Doença infecciosa causada por um protozoário Plasmodium e transmitida pela picada de mosquitos Anopheles. Parece ter origem no continente africano ainda na Pré-História e costuma ser tratada com hidroxicloroquina , o mesmo medicamento que tem causado polêmica em se tratando da Covid-19.

[13] George Orwell (1903-1950). Pseudônimo de Eric Arthur Blair, escritor e ensaísta inglês, nascido na India; morreu de tuberculose aos 46 anos. Suas obras mantêm influência  na cultura contemporânea, principalmente pela atualidade do livro 1984 (Nineteen Eighty-Four), escrito em 1949, quase uma antevisão de diversas realidades de hoje. Também merece destaque, dentre outros, A revolução dos Bichos ( Animal Farm), de 1945.

[14] Herbert George Wells (1866-1946). Escritor inglês, prolífico em suas produções literárias, conhecido como o Pai da Ficção Científica Moderna.  Destaques para A Guerra dos Mundos, O homem Invisível e A Ilha do Dr. Moreau.

[15]Observações de  Reinaldo Lopes, em artigo de análise da obra de Orwell.

[16] Fred Greenstein (1930-2018). Cientista político americano que discorreu sobre presidentes dos EUA e seus diversos estilos de liderança.

[17] Jorge Luis Borges (1899-1986). Escritor, ensaísta e poeta argentino. Autor de contos e obras admiráveis, tais como O Aleph, Ficções, A Biblioteca de Babel, O Livro de Areia. A citação acima está no prólogo do livro La invención de Morel ( traduzido como A máquina fantástica) de Adolfo Bioy Casares(1914-1999).