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Recado ao meu doutor

| por Carlos Roberto Schwartsmann*

 

Onde está o meu doutor? Estou te procurando sem encontrar!

Será que estas acamado, adoentado, enjoado, cansado, magoado!

Será que estas triste, deprimido? Será que estas escondido?!

Onde estás meu Doutor que não sai da minha mente!

Quero contigo consultar novamente, pois jurei fidelidade eternamente!

Onde estás meu doutor? Aquele que me atendia com o avental branco, límpido e, às vezes até engomado! Barbeado e perfumado!!

Aquele doutor que não me conhecia, apertava minha mão e puxava a cadeira gentilmente para poder me sentar.

Aquele doutor, que, com os olhos bem abertos, me ouvia atentamente. Aquele doutor que solicitava para tirar a roupa para me avaliar! Que me palpava, me examinava, verificava meus pulsos e meus reflexos!

Será que ele ainda se lembra que o Grego Hipócrates, Pai da Medicina dizia que o segredo dessa arte era “ouvir, observar e tocar”

Sinto falta disso!! Entendo, vivemos em outro tempo, deixa para lá o tal juramento.

Mas nunca vou esquecer que auscultava meus pulmões e solicitava para dizer a palavra mágica: “33”. Que escutava meu tórax e avaliava o ritmo acelerado e palpitante do meu coração.

Onde estás meu Doutor que me transmitia amizade e confiança! Que lembrava meu Pai e, muitas vezes, sonhadoramente, pensava que era um anjo enviado dos céus!!

Onde está o doutor que me acalmava, diminuía minha taquicardia e aliviava minha ansiedade? Onde está o Doutor que me transferia paz e tranquilidade, que alimentava minha mente! Serei igual daqui para frente?!

Que amenizava a minha dor, afagava meu ego e me dava uma explicação: não é grave, isso vai passar. Tudo tem cura e tem solução!

Onde está o sorriso e o abraço amigo?! O olhar atento e compreensivo!

Onde tu estas meu Doutor??!!

Depois de muita procura, finalmente te encontrei. Descobri que o meu Doutor está longe e distante atrás de um computador.

Caro Doutor, por favor, me ajude! Me socorre! Alimente meu corpo e também minha alma!

Caro Doutor, assim separados, gostaria de lhe dizer que não me sinto seguro! Por favor não me abandona!

Não quero requisição de exames pelo computador e tampouco receita pela internet!

Como ser humano, de afeto e carne quero uma verdadeira consulta e que os remédios para curar minha dor contenham compaixão, calor e amor.

Obrigado Doutor!!

 

Artigo publicado originalmente no jornal ‘O Sul” em 2 de setembro de 2020
*Médico, Professor Titular UFCSPA e Santa Casa