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Exposição revela talento fotográfico de cinco médicos viajantes

A Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina (ASRM) promove a mostra de fotografias “Olhar Viajante”, no Centro Cultural Histórico da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, na Avenida Independência, 75. A exposição terá lançamento no dia 3 de fevereiro e visitação até 11 de março, compartilhando o talento artístico de cinco acadêmicos selecionados em certame interno da Academia, supervisionado pelo curador da mostra, Éder da Silveira.

Ele salienta que a exposição, organizada pela Diretoria Cultural da ASRM, revela cinco médicos apaixonados pela fotografia e viajantes atentos a peculiaridades observadas no Brasil e no exterior: Sérgio de Paula Ramos, Jorge Milton Neumann, Miriam da Costa Oliveira, Roberto Giugliani e Paulo Silva Belmonte de Abreu. Para o curador, “o que temos diante de nossos olhos é o resultado de anos de dedicação à fotografia. São imagens captadas pelos mais diferentes rincões do Brasil e do mundo. Imagens de animais, de vegetação, de pessoas e de arquitetura. Imagens capturadas por médicos-fotógrafos-viajantes que aprenderam a olhar e têm a generosidade de compartilhar conosco alguns dos seus exercícios de contemplação e de criação de mundos”.

 

Uso dos sentidos

 

Na apresentação da mostra, com um total de 26 imagens, Éder da Silveira discorre que, “em suas origens mais remotas, a arte da cura estava centrada no aprendizado do uso dos sentidos. Os discípulos de Hipócrates precisavam apurá-los, com a observação e o devido estudo da natureza, para decifrar as origens do mal que acometia os seus pacientes. No curso da história, o avanço das técnicas foi tornando alguns dos sentidos a cada dia menos centrais. O paladar e o olfato, por exemplo, foram substituídos pelos exames laboratoriais. Outros foram ampliados em seu alcance, como a escuta, com o estetoscópio e a visão, com lentes, microscópios e máquinas como a que trouxe a fotografia à cena, em 1839”. Ainda destaca ele que, “originalmente criada como um equipamento científico, a fotografia rapidamente foi incorporada pela Medicina. Seja em estudos sobre o movimento, de homens e animais, desenvolvido por um dos seus pioneiros, Eadweard Muybridge, seja pelos alienistas que procuravam registrar os “estados de alma” de pacientes em hospitais psiquiátricos, como no Salpêtrière, em Paris, onde sob a batuta de Jean-Martin Charcot foi produzida a Iconografia Fotográfica do Salpêtrière”.

 

Celebração e memória

 

Conforme a diretora cultural, acadêmica Miriam Oliveira, a exposição lançada em meio à pandemia da Covid 19, na gestão do presidente Carlos Henrique Menke (2020/2021) e apresentada agora na atual gestão do presidente Luiz Lavinsky, encerra, com  maestria, os ciclos de celebração e memória dos 30 anos da Academia, completados em 19 de maio de 2020.

 

“Quem são os médicos- fotógrafos”

 

Em breves depoimentos, os autores das fotografias revelam como começaram a fotografar, com que equipamento captam suas imagens e o que significa a fotografia em suas trajetórias de vida.

 

SÉRGIO DE PAULA RAMOS nasceu em São Paulo. Psiquiatra e Doutor em Medicina pela UNIFESP. Desde 2015, é membro titular da ASRM onde ocupa a cadeira número 34.

Caçador de imagens

“Comecei a fotografar com 15 anos e não parei mais. Ao longo destes mais de 50 anos de fotografia naveguei por diferentes estilos e interesses. Há muito, no entanto, descobri que as fotos que me motivam mais são as da natureza, principalmente as da vida selvagem. Por isso, sempre que posso, vou ao encontro dela. Seja na vizinha Lagoa do Peixe, seja no Pantanal ou mesmo na África, onde já estive cinco vezes.

Fruto de todo este tempo, participei de algumas exposições anteriores a esta. Em 2015 tive uma individual no MARGS e depois participei de mais quatro coletivas.

Quando eu tinha 20 anos, a Bienal de SP quis fazer uma leitura de todos os olhares sobre a cidade e prometeu expor todas as fotos enviadas. Foi a minha estréia com uma foto que tenho até hoje da cena urbana, de um lixeiro dormindo na boleia coletora de um caminhão de lixo que passou por mim.

Defino-me como um caçador de imagens. Influenciado certamente pelo meu pai que, num tempo que isso era correto, praticava caça e pesca.

Já usei câmeras da Nikon e em 2006 migrei para a Canon. Uso as mais diferentes objetivas, mas para retratar a vida selvagem prefiro minha teleobjetiva de 600 mm que permite um distanciamento para não molestarmos o animal ou pássaro.

Acresço ainda que está no prelo um livro elaborado conjuntamente com o Confrade Jorge Neumann com foco em imagens da vida selvagem capturadas entre a Lagoa do Peixe, Viamão e Pantanal”.

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MIRIAM DA COSTA OLIVEIRA nasceu em Porto Alegre. Endocrinologista e Doutora em Medicina pela UFRGS. Membro titular da ASRM desde 2006. É ocupante da cadeira número 52.

Ciclo da descoberta e do encanto

“Não sou uma fotógrafa-raiz, apaixonada por máquinas, lentes e técnicas. Busco mais o registro-perfeito que a foto-perfeita. Mais que tudo, me encanta o detalhe: a asa do pequeno anjinho, os veios da madeira na caixa velha, a cor… Minhas fotos são urbanas. Fotografo com uma máquina para amadores, da Sony, que foi sendo trocada pela última versão ao longo dos anos. Atualmente fotografo muito com o celular. Quando o celular me der o zoom que preciso, provavelmente abandonarei a máquina. Comecei a fotografar tardiamente, há pouco mais de 15 anos, em viagens. Na última década passei a fotografar Porto Alegre, inicialmente percorrendo o Centro Histórico e bairros no seu entorno, colecionando imagens de fachadas de prédios antigos, especialmente os do início do século 20, com ênfase em frontões de casas mais simples.

À medida em que os anos passaram, fui cada vez mais focando em minúcias, até criar minha primeira série no Instagram, a Lá e Aqui (#serielaeaqui), onde postava uma única foto compondo um determinado tópico, exemplo: uma vitrine de loja ou uma luminária, lá (em qualquer país onde fotografei) e aqui (Porto Alegre). Outras séries de postagens vieram, outras viagens vieram, expandi meu interesse por artes visuais, e cada vez mais me dediquei a cenas reais e a pormenores.

Na contramão da fotografia atual, não edito fotos para além de posicionamento e corte. Longe de ser uma posição radical, ainda prevalece meu respeito ao que a máquina captou daquilo que vi, como vi. Para mim, fotografar faz parte do ciclo da descoberta, do encanto que poucos vêem, da associação e das lembranças, pedaços importantes da vida”.

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JORGE MILTON NEUMANN nasceu em Porto Alegre. Imunologista com Research Fellow na Universidade de Toronto.Membro titular da ASRM desde 2015 na cadeira 48. É autor do livro “Emoldurando Paisagens”. E tem outro no prelo, em parceria com Sérgio de Paula Ramos. A fotografia está incrustada em mim.

A fotografia está incrustada em mim

“Meu pai, durante minha infância, tinha um laboratório fotográfico em casa, onde revelava e ampliava suas fotos em preto e branco. Em paralelo a isso, por conta de seu trabalho na Varig, tinha acesso aos filmes de slides Kodachrome, coloridos. Estes, nos anos 1950, só eram comprados e revelados nos Estados Unidos e eram muito raros por aqui no Brasil.

Foi com sua câmera, uma Pentacon fabricada na então Alemanha Oriental e carregada com um filme Kodachrome, que fiz minha primeira foto aos 12 anos. Nunca mais esqueci desta foto da fachada da catedral de Blumenau feita em uma viagem familiar. A fotografia está incrustada em mim.

Estou sempre enxergando fotos em quase tudo que olho, mas infelizmente raras são às vezes em que consigo materializar essa visão. A maior parte das vezes porque estou sem a câmara ou por falta de tempo. Como equipamentos, uso a Sony A7 III e lentes Sony. Ou uma G OSS 24-105 mm, ou uma GM OSS 100-400 mm. Esta última ocasionalmente acoplada a um teleconverter Sony 1.4.”

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ROBERTO GIUGLIANI é Geneticista e Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo. Membro titular da ASRM desde 2015. Porto-alegrense, ocupa a cadeira número 25.

Lugar especial na minha vida

“Comecei a me interessar por fotografia a redor dos 12 anos, época em que troquei meus carrinhos de autorama por uma câmera Bieka formato 6×6, bastante rudimentar, com a qual passei a obter registros em preto e branco, inicialmente da família e logo de flagrantes do cotidiano também. Aos 15 anos comecei a experimentar o formato 35 mm (ainda em preto e branco) com câmeras provenientes da Europa oriental, na época bem mais em conta. Aos 17 anos, f vendi minhas câmeras básicas, e fui de carona até o Paraguai para comprar minha primeira Asahi Pentax. Comecei a trabalhar para a Editora Edel com as fotos para os álbuns dos 150 anos da imigração alemã (1975) e os 100 anos da imigração italiana (1976). Também atuei em empresas de publicidade (Escala) e de produção de filmes (Módulo Filmes), para esta última fazendo as fotos do making-off. Trabalhei também na área cultural do Círculo Social Israelita, fotografando os ensaios de teatro para divulgação das peças. Mudei o laboratório para uma nova empresa (Expansul, na Felipe Camarão) e a carreira ia decolando bem, mas passei no vestibular para o curso de Medicina da UFRGS, tive que começar a diminuir o ritmo da fotografia para harmonizar com as necessidades da graduação.

Em exposição coletiva em 1970, ao lado de vários fotógrafos gaúchos, ganhei um prêmio no 1º PhotoPuc, com o qual comprei uma nova Pentax. Em 2006 comprei minha primeira Canon e iniciei a fase digital, usando principalmente lentes zoom, que têm menos qualidade, mas tem mais flexibilidade, o que se adapta melhor ao tipo de fotografia que me atrai (flagrantes do cotidiano em diferentes lugares do mundo envolvendo pessoas, especialmente silhuetas). Em 2012, ao completar 60 anos, fiz minha primeira exposição individual (denominada “Sombras e Lugares”, com a curadoria de Luiz Carlos Felizardo), a qual inaugurou um novo espaço cultural do térreo da reitoria da UFRGS, e depois foi mostrada no hall do 2º andar do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Nessa ocasião, editei um livreto com as 40 fotos expostas. Até hoje a fotografia se mantém como uma atividade que me interessa, me motiva e me provoca, ocupando um lugar especial na minha vida”.

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PAULO SILVA BELMONTE DE ABREU nasceu em Camaquã. Psiquiatra e Doutor em Medicina pela UFRGS e pela The Johns Hopkins University. Membro titular da ASRM desde 2018 ocupando a cadeira 53.

Busca do momento único

“A foto da exposição Alvorada Azul foi feita por uma câmera acoplada a um Motorola G6, em circunstâncias não-planejadas para tal, em uma tentativa de captar a beleza do nascimento do sol e sua luz refletida nas dunas de areia no verão de 2021, no pátio de minha casa de veraneio no Litoral Norte do Estado. A fotografia sempre foi experimentada como uma forma de capturar, de forma permanente, aspectos singulares e únicos do mundo, das coisas, das pessoas e dos animais. Com isto, registra um momento único, em uma expressão única e depois permite sua visualização em outros momentos por outras pessoas.  Este processo atraiu inicialmente a atenção nas fotos de família, em veraneios, sentados em dunas, agrupados junto à guarda-sol, com bóias cortiça na cintura, com o rosto desafiando o vento) em aniversários, e almoços em restaurantes que na época ofereciam fotógrafos de plantão. Na época as fotos eram guardadas como um tesouro, em caixas de madeira, em alguns momentos escondidas – algumas destruídas durante um período do país que poderiam servir de motivo até para prisão.

O início foi com uma máquina “Flika”, de lente fixa, aos 12 a 14 anos, depois trocada por uma Agfa, também rudimentar com recursos escassos, utilizada para a aula de fotografia na escola, que pelo peso e facilidade de manejo, acompanhava, aulas, jogos, reuniões, excursões, acampamentos, ativada seletivamente – o custo do filme e da revelação, mesmo que feita em laboratório caseiro, era alto. Cada vez mais, com a busca do momento único, da qualidade particular e da riqueza escondida em rostos, grupos, animais, pessoas e épocas da vida que até hoje constitui um motor de minha vida”.