REGISTROS

ANAIS

Discurso em homenagem ao Dr. Mariante – reunião da Academia de 29/08/20

Sr. Presidente Carlos Henrique Menke

Sras. Acadêmicas e Srs. Acadêmicos

 

Familiares do Acadêmico Honorário João Gomes Mariante

Seus filhos, Cláudia e

Tulio;

Netos, Luciana, Iná, Fábio Ivan e Tito;

E Bisnetos, Isabela, Martina, Tom, Eric e Juliano

 

 

Há alguns dias, o Presidente da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina, Dr. Carlos Henrique Menke comunicou-nos o falecimento do Acadêmico Honorário João Gomes Mariante ocorrido em 9 de agosto, domingo, Dia dos Pais. O Dr. Menke ressaltou a participação do psicanalista, professor, escritor e fundador do Jornal Mente e Corpo nas atividades da Academia, bem como o notável legado que deixou como exemplo de postura ético-profissional.

Blau Souza em um discurso biográfico, por ocasião dos 92 anos, lembra que o Dr. Mariante “nasceu, em de 1918, na Porto Alegre em que as crianças nasciam em casa, aparadas pelas parteiras”.

– 1918, um ano que marcou o mundo pelo fim da I Grande Guerra, que ocasionou milhões de mortes e por uma pandemia, a Espanhola, que chegaria a Porto Alegre na segunda metade daquele ano e que, conforme alguns autores, seria responsável por um número maior de mortes do que a Grande Guerra.

Dr. Mariante viveu boa parte de sua infância na estância do pai em Porto Mariante, às margens do rio Taquari, no interior do Rio Grande do Sul. Na mesma época, nos anos 1920, em que surgiu a ideia dos centros de saúde visando à prevenção das doenças e à promoção da saúde.

A imagem de uma estância nos remete a um local sereno e tranquilo. No entanto, esta propriedade estava encravada em um Estado sacudido pela revolução de 1923, pelo término do longo governo de Borges de Medeiros, pela ascensão de Vargas ao Governo do Estado e a Presidência do país, pela revolução de 32 e a uma ditadura longeva.

A sua juventude assistiu o período de exceção consolidar-se na forma de Estado Novo nos fins dos anos trinta e, também, o início daquilo que a humanidade não queria acreditar que fosse possível ver de novo, a 2ª guerra mundial. Porém também viu os avanços da terapêutica, obtidos durante as duas grandes guerras.

Enquanto o país e o mundo vivem estranhos momentos, ele aprende as primeiras letras, estuda, prepara-se para os exames de madureza, aproxima-se do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro e ingressa na Faculdade Fluminense de Medicina, em que se forma em 1946. A mesma faculdade de onde os alunos partiram para as ruas, no início dos anos quarenta para pressionarem o Governo a somar-se aos aliados contra o nazismo.

E é nos bancos acadêmicos que acompanha os avanços da medicina: no campo da prevenção, as necessidades de bons programas de saúde pública, afinal um dos prédios da Faculdade foi inaugurado por Carlos Chagas na década de 1930. E no campo da terapêutica, a introdução da antibioticoterapia, leia-se penicilina e estreptomicina, no tratamento das doenças infecciosas.

Ainda como estudante de medicina se inicia no jornalismo. Foi editor da revista Medicina Social e comentarista de saúde pública no Correio da Manhã do Rio de Janeiro. Ao findar o curso de medicina, foi orador da turma. E o seu discurso o aproxima do Presidente Vargas, afastado do poder desde o ano anterior.

Formado em medicina, volta ao Rio Grande e vai exercer a profissão no local em que vivera a sua infância, Porto Mariante. Primeiro, atendendo aos chamados a pé, a cavalo, de jipe ou de barco. Depois, transfere-se para Venâncio Aires para o então posto de higiene. Os “postos de higiene” cujos projetos, no Rio Grande do Sul, foram idealizados, nos anos vinte, por Fernando de Freitas e Castro e desenvolvidos e implementados por Bonifácio Paranhos da Costa no fim dos anos trinta, vieram a ser a base do Departamento Estadual de Saúde-DES, nos anos quarenta. Uma rede de atendimento à mãe, à criança e ao controle de doenças transmissíveis, da qual a unidade de Venâncio Aires faria parte, era chefiada pelo Dr. Mariante. Na chefia do posto, segundo Blau, organizou campanhas e implantou medidas simples e efetivas de higiene e saúde pública, como o combate ao mosquitos, importantes vetores na transmissão de doenças. Nesta época participa da fundação do Rotary em Venâncio Aires.

Inquieto, voltou ao Rio de Janeiro onde morou, trabalhou e especializou-se em psiquiatria. Anos depois, sempre em busca de aperfeiçoamento, buscou formação psicanalítica em Buenos Aires, onde permaneceu por oito anos. Foi professor de vários cursos de pós-graduação, lecionou na Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires, em cursos de psicologia de Córdoba e Rosário. E Blau salienta: foram tão intensas suas atividades na Argentina e tão grande o número de amigos que, ao anunciar sua volta para o Brasil, a despedida estendeu-se por 45 dias de confraternizações.

Morou em São Paulo, ali exerceu a psicanálise, foi professor de pós-graduação da Faculdade de Ciências Médicas e tornou-se membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise.

Nos anos em que esteve fora do Rio Grande do Sul, residindo nas 3 cidades mais importantes da América do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo e Buenos Aires, pode acompanhar, no plano mundial, os episódios da Guerra Fria e o temor constante de uma tragédia atômica; a expansão e queda do comunismo. E no Brasil, a eleição e suicídio de Vargas na primeira metade dos anos cinquenta; o governo desenvolvimentista de JK; os movimentos políticos que antecederam 64 e a implantação de uma nova ditadura, agora militar, e por fim, a redemocratização do país. Nos tempos da Argentina, acompanhou parte da história do peronismo.

Sua formação psicanalítica e sua experiência como jornalista levaram-no a escrever três livros sobre personagens importantes da história do Brasil. Getúlio Vargas, o lado oculto do presidente contém o olhar íntimo da privilegiada convivência com o chefe da nação no Rio de Janeiro. Iniciada depois que o discurso do orador da turma de 1946 da Faculdade Fluminense de Medicina chamou a atenção de Vargas. Sobre Getúlio, em uma palestra na Unimed de Erechim, a convite de seu presidente Alcides Stumpf, em 2018, ele deu a sua interpretação sobre o histórico fato de 1954: “…, Getúlio não se matou; ele estava matando algo dentro dele: Carlos Lacerda, a UDN, a paixão alucinante (a amante) que havia lhe deixado. ”

Sobre os livros: “Os Três Azes de Trinta” e “Três no Divã” analisa vultos da Revolução de Trinta e do Brasil moderno: Getúlio Vargas, Flores da Cunha e Osvaldo Aranha. “Como psicanalista, pesquisei e interpretei os meandros mais profundos do psiquismo dos três próceres da Revolução de 1930”.

Se como cidadão pode acompanhar estes acontecimentos, como médico assistiu e participou do extraordinário desenvolvimento da medicina e da saúde pública ocorrido nos últimos 80 anos. Na condição de psiquiatra foi um dos protagonistas da grande transformação ocorrida no atendimento ao doente mental. Exerceu a psiquiatria e a psicanálise no Rio Grande do Sul como fizera nas três grandes cidades sul-americanas. Conta, em 2017, por ocasião dos 15 anos do Jornal Mente e Corpo como deixou o atendimento do consultório e investiu no jornalismo: “O fato de ter encerrado a clínica psicanalítica – para mim, uma das ocorrências mais traumática e desalentadora que poderia ocorrer – levou-me a fundar um jornal. ”

Estava habilitado para tal, pois antes de se formar em medicina teve vínculos com o Diário de Notícias de Porto Alegre, foi secretário de redação dos Arquivos Brasileiros de Higiene Mental, diretor da revista “Medicina Social” ambos do Rio de Janeiro e ter pertencido à Associação Brasileira de Imprensa do Rio de Janeiro.

Mariante continua seu depoimento: “No limiar do ano de 2002, os sintomas de uma diminuição da acuidade bilateral especialmente da surdez de percepção das palavras e dos sentidos das frases, foram se assentando de tal forma que a impressão existente que me assolava era de uma impossibilidade real de ouvir e de entender a fala de alguém.

A pungente e dolorosa realidade caiu como uma carga de TNT, a destruir todo um conglomerado de conquistas no terreno das ciências psicológicas, psiquiátricas e psicanalíticas. E, ainda, o aniquilamento do propósito destinado a amparar seres humanos a se encontrarem, evocando a técnica da psicanálise e, no setor psiquiátrico, vários anos ensinando psiquiatria no país e no estrangeiro”.

Ao mesmo tempo em que buscava soluções para o problema da audição, foi acometido por infarto agudo do miocárdio. Embora prontamente atendido pelos Drs. Matias Kronfeld e Luis Maria Yordi, o infarto deixou-o por algum tempo impedido de exercer a clínica. Comentando o atendimento recebido feito pelos dois médicos, assegura que foi: “de maneira tão humana e dedicada, comum aos médicos de antanho, e que nos dias hodiernos pertencem a tempo acabado”.

Não obstante os dois episódios e tentando solucionar o problema que a cada dia mais se agravava, continuava atendendo, mas, aos poucos, derivava os pacientes a outros colegas e sentia mágoa de não poder atendê-los.

O calvário do velho psiquiatra não terminou aí. O consultório e residência, local onde era guardada a maioria dos seus bens, foram destruídos por um incêndio. Lá estava parte de suas reservas, uma coleção de revólveres, um rascunho feito por Toulouse-Lautrec, uma aquarela de Portinari, algumas obras de artistas argentinos e de outros países da América do Sul. Ali também estavam os computadores com sua história, seus documentos pessoais, trabalhos acadêmicos, pesquisas e artigos ainda não publicados.

O golpe talvez tenha destruído o psiquiatra, mas não o homem, este se reergueria como jornalista. Um jornalista médico que faria um jornal para expor a história da medicina e a medicina de seu tempo. Assim surgiu o jornal Mente e Corpo, que publicou inúmeros artigos sobre medicina e literatura.

Entre os médicos que participaram desta empreitada, estava o Blau Souza que escreveu sobre a vida de Mariante e Franklin Cunha, tendo este último deixado importante depoimento com o título “Um homem admirável”.

 

Um homem admirável

 

Franklin Cunha

 

Acompanhei a atividade intelectual do Dr. João Gomes Mariante durante os dez anos que colaborei com seu jornal Mente Corpo. Fiz parte, junto com meu colega Blau Souza, da secção Medicina e Literatura. Ficava admirado com sua intensa atividade como editor, escritor, administrador financeiro, distribuidor, arrecadador de anúncios. Acompanhei-o em viagens para seduzir empresas, laboratórios, consultórios, pessoas jurídicas e físicas para levar adiante seu projeto editorial. E – incrível – com cerca de 90 anos, Dr. Mariante ainda encontrava tempo para pesquisar e escrever livros e textos para jornais e revistas. E ainda o que é mais admirável nesse homem, com cem anos, ele segue exercendo todas essas atividades com persistência e com inquebrantável entusiasmo juvenil.

 Mariante foi alvo de inúmeras homenagens. A governadora Yeda Crusius entregou-lhe a medalha Simões Lopes Neto, a mais importante condecoração outorgada pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Na ocasião, referindo-se a obra “Três no Divã”, afirmou: Esse livro foi como uma luz e me fez ver a política e seus personagens de uma maneira diferente. Por causa dele, reabilitei o busto de Flores da Cunha, que foi um grande governador e cuja escultura estava em um depósito”. E referindo-se a Mariante: “Este homem é uma lição de vida”.

Colega de profissão e de especialidade de Cyro Martins recebeu das mãos de Cláudio e Maria Helena, filhos de Cyro, o Prêmio Cyro Martins – Reconhecimento, Ciência e Cultura. Para Mariante este Diploma tornou-se uma láurea, um galardão, que representa mais que uma simples homenagem, transfigura-se em afeto, ternura, solidariedade e amor. Considera que o título recebido “significa a mais expressiva das insígnias, que, ao longo da existência, chegaram às minhas mãos”.

E também esta Academia lhe prestou o reconhecimento devido, nas palavras do acadêmico Carlos Gottschall: “Entre as honras que cultivo enquanto presidente está a de ter-lhe entregado o título de Membro Honorário da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina, reconhecendo seu extraordinário trabalho em prol da cultura, da ética e da ciência médica, sendo que o Jornal Mente e Corpo se constituiu num arquivo permanente de consulta sobre temas médicos, estendendo-se à gerações de profissionais”.

No seu centenário, o Presidente da Academia, Gilberto Schwartsmann, pediu ao psiquiatra Dr. Sérgio de Paula Ramos, que lhe entregasse uma placa. Dr. Sérgio, na solenidade, contou que fez uma visita ao homenageado em busca de informações para melhor embasar seu pronunciamento. Foram duas horas em sua residência-consultório-escritório de uma conversa instigante em que teve a oportunidade de fazer a mesma pergunta que outros já lhe haviam feito: “A que atribui sua longevidade”?

A resposta permitiu ao entrevistador concluir: “Para ele um elemento relevante é este olhar permanentemente posto no futuro, com uma agenda repleta para os próximos dois anos, onde também estão incluídas as reuniões da Academia”.

Foi neste ambiente que conheci João Gomes Mariante e a sua luta para viabilizar e manter o Jornal Mente e Corpo. Porém foi no discurso do acadêmico Blau que fiquei sabendo que ele nasceu em uma casa da Rua Mariante, esquina com a rua Castro Alves, a duas quadras da Av. Mostardeiro, via que no início do século XX dava acesso à chácara do meu avô, onde minha mãe nasceu, e a uma quadra da rua que leva o nome de minha bisavó, D. Laura. Ou seja, a casa onde ele nasceu era lindeira com os terrenos da minha família. Na casa da chácara, moravam meus avós e seus filhos. Minha mãe era a mais moça dos 12 filhos e Carlos, o Xiru, formado em medicina, o mais velho. No mesmo ano em que o guri João veio ao mundo, no marcante ano da pandemia, o médico Carlos Mostardeiro, designado pela a autoridade sanitária como responsável pelo quarteirão 21, foi velado na moradia vizinha da família Mariante. Xiru morreu vitimado pela gripe que assolava Porto Alegre naquele novembro de 1918, a Espanhola.

Pouco mais de cem anos passados, em outra terrível pandemia, coube a mim, sobrinho do Xiru, a quem eu não conheci, amigo de Mariante, com quem convivi, médico como os dois e, em nome dos colegas Acadêmicos, dizer Adeus a este psiquiatra, psicanalista, jornalista, escritor e, sobretudo, simplesmente um Médico.

Procurei entre as lembranças que deixou alguém que viesse do seio da sua história e encontrei em sua filha, Cláudia, as palavras para a conclusão desta homenagem. Ao lhe ser perguntado como e porque havia chegado aos cem anos, sem querer, o Dr. João Gomes Mariante, mais uma vez, revelou seu conteúdo poético: “Porque nunca me deitei na esteira do tempo …”

 

Discurso proferido pelo Orador da Academia Sul-Riograndense de Medicina, Dr. Germano Mostardeiro Bonow, em homenagem ao Dr. João Gomes Mariante, na data de 29/8/2020.

 

João Gomes Mariante:   *Porto Alegre – 26.02.1918                  +Porto Alegre – 09.08.2020