CADEIRAS - FUNDADORES

PATRONO

Alfeu Bica de Medeiros

Nascido no Alegrete no dia dez de outubro de 1880, era filho de João Pedro de Medeiros e Joaquina Bica de Medeiros. Aos dezessete anos de idade, deixou o bolicho de campanha do pai, embarcou numa diligência em Alegrete e num trem em Cacequi para chegar a Porto Alegre. Trazia algum dinheiro costurado por dentro da calça e o usou para embarcar rumo à Bahia, na ânsia de ser médico. No primeiro ano do curso, Salvador foi tomada por epidemia de febre amarela e as aulas foram suspensas. Não querendo perder tempo, Alfeu cursou um ano de Farmácia em Ouro Preto. Mas logo voltou á Medicina, formou-se na Faculdade da Bahia em 1903 e retornou para exercer a profissão em sua cidade natal. O ingresso nas Forças Armadas facilitou-lhe a formação e chegou em Alegrete como médico militar. Foi tal o impacto de sua atuação, que senhoras da comunidade alegretense conseguiram por subscrição popular a compra de um carro para o jovem doutor, segundo noticiou o jornal A Gazeta. Logo foi diretor da Enfermaria Militar e, aos 31 anos de idade, tornou-se provedor da Santa Casa de Alegrete.

O momento era muito especial no Rio Grande do Sul, pois os médicos  com formação regular tinham os mesmos direitos e prerrogativas que os leigos de diferentes graus de conhecimento e livres para exercer a Medicina desde que se registrassem como médicos e pagassem as devidas taxas. Não havia exigência de diploma ou de outros documentos comprobatórios de aptidão para o exercício profissional. Ao contrário dos outros Estados, a constituição castilhista, em nome da liberdade no exercício das profissões, beneficiava charlatães e aproveitadores das mais diversas procedências. Alegrete era um dos principais fornecedores de jovens para as faculdades e não foi por acaso que em 1915 lá surgiu a então Liga Médica, da qual Alfeu Bica de Medeiros foi o primeiro secretário. Liderou, junto com a Sociedades de Medicina de Porto Alegre, os esforços para realizar  o Primeiro Congresso Médico Rio-Grandense em 1915 para tratar da liberdade profissional e de outros assuntos. Alfeu Bica de Medeiros foi o encarregado de apresentar o relatório sobre o tema principal do encontro. O impacto seria grande e o governo inviabilizou o encontro ao proibir que médicos funcionários do Estado dele participassem. Não saiu o congresso, mas o relatório foi divulgado através de edição da Globo em 1916. Em 1919, o doutor Alfeu interrompeu suas atividades em Alegrete. Foi para a Europa como integrante da Missão Médica Brasileira na Primeira Grande Guerra. O conflito estava terminando e o doutor Alfeu resolveu tirar o máximo proveito científico da sua estada na Europa. Permaneceu em Paris por algum tempo, comparecendo diariamente aos melhores serviços de cirurgia da época. Instalou-se com a família no mesmo hotel em que estavam Heitor Cirne Lima e Heitor Annes Dias. Lá, aperfeiçoou suas virtudes de cirurgião e se preparou para fazer o que havia de mais avançado na época em cirurgia.

Ao voltar, estabeleceu-se em Porto Alegre, onde praticou e ensinou cirurgia enquanto julgou-se apto para fazê-lo. Era dos primeiros a chegar pela manhã na enfermaria e providenciava registro de presença para os inúmeros médicos que buscavam aperfeiçoamento na famosa Décima Enfermaria da Santa Casa, que ele chefiou por muitos anos. Com capacidade técnica, otimismo, bom humor e disciplina, ele fez escola. Não fumava, não bebia e nem dirigia automóvel para que a habilidade de suas mãos permanecesse intacta para os atos cirúrgicos. Sem uma ligação direta com a Faculdade de Medicina, caracterizou o ensino da cirurgia como atividade extracurricular e sedutora, de aprendizado diário, independente de estrutura universitária. Transformou a 10ª Enfermaria da Santa Casa num grande centro formador de cirurgiões. A Anestesiologia, por exemplo, muito deve ao doutor Alfeu e à Décima Enfermaria. Quando surgiram os tubos endotraqueais e os aparelhos usando gases anestésicos em circuitos fechados, ele teria exclamado:  “Viva! Agora poderemos operar os órgãos da caixa torácica, abrindo a pleura”. Logo os doutores Fernando Becker e Luiz Carlos Ely trouxeram aparelho de Buenos Aires e passaram a usá-lo com auxílio do doutor Telmo Kruse. Em maio de 1945, tão logo acabou a segunda grande guerra, ele enviou o doutor Bube dos Santos aos Estados Unidos para aprender a nova técnica. Na volta, houve pioneirismo e o doutor Augusto Maria Sisson, auxiliado pelo doutor Fernando Carneiro Becker, fez, com sucesso, na 10ª Enfermaria da Santa Casa, a primeira pneumonectomia do Rio Grande do Sul. Também os bancos de sangue devem muito ao Dr. Alfeu e à Décima Enfermaria pois graças a eles o Dr. Guido Bornancini teve oportunidade de desenvolvê-los. Ele estava sempre aberto a influências externas e se atualizava a cada ano em temporadas no Rio de Janeiro junto de seus amigos Fernando e Augusto Paulino. Sua habilidade para operar estômagos e tireóides teve muito a ver com esses estágios. Quando o doutor Alfeu deixou a enfermaria nos anos cinqüenta, coube aos seus discípulos Fernando Pombo Dornelles e Telmo Kruse manter acesa uma tradição de atendimento e ensino excelentes.

Dentro da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, o doutor Alfeu foi muito mais do que um chefe de enfermaria, como bem acentuou o antigo provedor Arquimedes Fortini através da imprensa. Fez da Décima Enfermaria um dos serviços de cirurgia mais bem aparelhados tanto do ponto de vista técnico quanto do conforto dos seus pacientes. Assim, quando surgiram as camas hospitalares articuladas, por exemplo, a Décima Enfermaria as teve antes que muitos hospitais particulares. Através de doações de amigos e das suas, bem como conseguindo dinheiro através de festas organizadas por sua esposa junto com as amigas e os familiares dos médicos assistentes da enfermaria, o doutor Alfeu operava milagres. Conta Arquimedes Fortini [que certo dia ele compareceu ao gabinete da provedoria, dizendo: “Encontrei um aparelho de RX próprio para atender às enfermarias que funcionam ao lado e na mesma ala da Décima. Aqui estão as duplicatas, já com o meu aval, para serem assinadas pelo provedor”. O aparelho logo passou a funcionar e o doutor Alfeu Bica de Medeiros, mais uma vez, comportou-se como um dos beneméritos da Casa. Quando o general Daltro Filho era o interventor no Rio Grande do Sul, seus médicos eram os doutores Alfeu Bica de Medeiros, Antônio Saint’Pastous e Homero Fleck, que conseguiram importante colaboração governamental para as obras de ampliação da Santa Casa. Disso resultou um novo pavilhão, em que passaram a funcionar a maternidade e o berçário e que passou a chamar-se Pavilhão Daltro Filho. Como médico militar, reformou-se no posto de coronel.

Amigo de Getúlio Vargas, fez a Revolução de 1930 e foi companheiro de turfe de Flores da Cunha. Fazendeiro, cuidava da Estância São Manoel, onde, sexagenário, aprendeu a dirigir um jeep. Casou com dona Luiza, filha de Manoel de Freitas Valle, intendente de Alegrete e falecido na epidemia da Gripe Espanhola. Teve uma única filha, Maria de Lourdes Bica de Medeiros, que foi casada com o professor Homero Fleck. Deste casamento, nasceram Alfeu, médico; Gilberto, engenheiro falecido aos vinte e oito anos de idade; e Maria Luiza, jornalista, casada com Teodoro Saibro. Alfeu Medeiros Fleck, esteve ligado por algum tempo ao ensino e à Enfermaria 38 dos amigos Eduardo Faraco e Jorge Pereira Lima. Depois foi para Alegrete, onde trabalhava no [SAMDU e assumiu a Estância e Cabanha São Manoel, por ocasião da morte do pai. Um dos seus cinco filhos, Alfeu Medeiros Fleck Júnior, é médico e um dos responsáveis pelo programa de transplantes de fígado na Santa Casa de Porto Alegre.

Quando da fundação da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina, o doutor Alfeu Bica de Medeiros foi escolhido como patrono da cadeira de número um, que tem como titular [seu discípulo Fernando Pombo Dornelles, um dos fundadores da entidade, seu primeiro presidente e um de seus sócios eméritos.