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14/09/2015
Os que não conseguem morrer

OS  QUE  NÃO  CONSEGUEM  MORRER

Morrer literalmente, é de um primarismo e de uma pobreza que contrasta com a engenhosidade e a exuberância dos sonhos concebidos  naquela fase da vida em que fantasiamos ser o que provavelmente nunca  seremos.

Superada esta etapa de projetos irrealizáveis e promessas falaciosas, os modelos da vida real começam a se esboçar com diferentes perspectivas. E todos, de uma maneira mais ou menos elaborada, tentam sublimar a  rudeza da morte e seguir vivendo apesar da ameaça.

Excluída a legião tristemente majoritária, dos que gastam a vida tendo como único alvo a sobrevivência - e desses não se pode exigir mais do que  tristeza e resignação -  emergem dois grupos de pessoas  mais equipadas do ponto de vista  intelectual e econômico, ou seja, aqueles que tem  condições de realmente planejar o que querem ser. Evidentemente  se vão conseguir  ou não, dependerá de uma série imensa de fatores aleatórios como inteligência,  iniciativa, perspicácia, ambição, oportunismo,  coragem e, naturalmente, uma pitada de sorte. Esses ingredientes que dão à vida, o delicioso  colorido do imponderável.

Mas não é dessas dificuldades e vicissitudes  que quero me ocupar. Pretendo antes, rever as motivações  que tornam tão diferentes os indivíduos que partindo do mesmo ponto de largada e com os mesmos equipamentos, escolhem caminhos tão diversos na busca  da realização e da felicidade pessoal.

Há os egocêntricos, que crescem enclausurados na autossuficiência, constroem grandes fortunas,  esmagam os concorrentes, assinam Valor Econômico,  esbanjam vaidades discutíveis, casam com mulheres bonitas e fúteis, montam sofisticadas academias em casa e ainda assim engordam muito,  e morrem  antes da velhice,  e promovem velórios silenciosos, rodeados de amigos  falsos e parentes interesseiros.   Alguns poucos, já na  terceira idade, tentam consertar a trajetória porque se sentem esmagados pela solidão  e resolvem buscar alguma forma de absolvição para o estigma do egoísmo, e organizam obras sociais que talvez até justifiquem o nome em placa de rua nalgum subúrbio que nunca frequentaram. Muitos, mesmo na homenagem, não conseguem dissimular a falta que faz a espontaneidade.  A avareza é uma tatuagem com tinta colorida. Dolorosamente irreversível.  Para este grupo a morte é a única terapia eficaz, compreensivelmente acelerada pelo esquecimento.

No contraponto, estão as criaturas especiais que nasceram para outro tipo de façanha: a modificar para melhor a vida dos outros. Alguns desses até ganham dinheiro, não porque o perseguiram, mas como prêmio por sua competência. Para estes tipos não há espaço para vaidades, nem tolerância com as mediocridades laureadas.   São modestos e austeros,  detestam exibicionismo e estão sempre inconformados por terem feito menos do que conceberam realizável.  Não se queixam de fracassos eventuais e até usam deles para se  fortalecerem ainda mais  e esticar a corda do possível. São estoicos na doença e comovem seus pares pela bravura e pela resiliência.   Quando chega a morte física, parece que não.  Há tanto para relembrar  e tantos projetos energizados pela contagiante gana de viver,  que eles serão perpetuados, pelo menos  até que morra o último felizardo, agraciado pela ternura  do convívio.

Li o obituário do Silvio Antonio Zanini, com a leveza de quem tinha  testemunhado pela vida afora, a doce passagem de um desses tipos  imortais. E depois que chorei, senti vontade de melhorar. 

Autor: J.J. Camargo