Barra topo

Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina

Rua Bernardo Pires, 280, Sala 402 - CEP 90620-010
Porto Alegre - Rio Grande do Sul
(51) 3217-0666 - secretaria@academiademedicinars.com.br
Artigo - Artigos - Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina Artigo
14/09/2015
O Dilema de Amadurecer

O DILEMA DE AMADURECER

A doença entristece as pessoas. Também por isso ela parece mais chocante na infância, época em que  não há nada mais incompreensível e fora do lugar do que a tristeza.

Ver aqueles carequinhas, reunidos na sala de brinquedos sem nenhum entusiasmo, quase mudos, é uma experiência de moer o ventrículo mais empedernido.  

Se não  bastasse o sofrimento físico da dor, frequentemente  há uma história de abandono que nunca sabemos  se é  provocada pela dispersão do carinho na luta pela sobrevivência, ou se  multiplicada pela pobreza.  O que sobra é carência de afeto, em cada gesto, em cada pedido silencioso de socorro.

Quando era residente despertei a simpatia dum alemãozinho, com o olho que doía de tão azul, e que passou a me perseguir pelo  hospital inteiro, e resistia agarrado à minha perna quando pressentia que eu estava indo embora.  Hoje sei que o que fiz era condenável e espero que não haja pena retroativa para aquilo: um dia,  acabei levando-o para minha casa no final da tarde e ao vê-lo ser banhado,  saciado na sua fome ancestral, e vestido para dormir com o pijama do meu filho pequeno, tive a certeza de que tinha feito a melhor coisa daquela fase já distante da minha vida.

Agora provavelmente não repetiria a façanha, e justificaria dizendo que fiquei mais maduro. O problema está na dificuldade de assegurar que esta evolução significou ter mudado para melhor. Nem quero pensar nisso, mas eu sei a resposta.

Anos depois, ao receber a solicitação de uma consulta interdisciplinar, constava da ficha o nome do paciente, Horácio, o setor de oncologia, e uma surpresa na idade: 9 anos. Foi sucinto quando lhe perguntei, intuindo a resposta: “Por quê, Horácio?” “Vontade do meu avô!”

Aparentemente dele também herdara a sobriedade,  e o jeito de vestir.  Sentado à minha frente, com os bracinhos cruzados, um paletozinho desbotado que começava a faltar nas mangas, uma inquietude nervosa das pernas, e o cabelo loiro rarefeito pela quimioterapia, era um convite a ser abraçado, mas resisti. Tinha ficado mais maduro, lembram?

Depois da cirurgia, ele  ainda recebeu mais duas doses dos medicamentos e passou o Natal internado,  mas  com uma carinha já mais animada, contrastando com a apatia dos seus parceiros de  sina e de dor.

Na festinha natalina, havia uma mesa repleta de brinquedos trazidos pelos anjos anônimos da Liga Feminina de Combate ao Câncer, e um bando de magrinhos impacientes, sendo selecionadas por ordem de sorteio, para escolher  livremente o seu presente.

A chamada prosseguiu e eu não conseguia despegar do olhinho luminoso do Horácio cada vez que um coleguinha se aproximava da mesa para a  seleção. Quando já restavam poucos brinquedos, ele foi finalmente chamado. Caminhou resoluto, afastou uns carrinhos de plástico, agarrou o único livro que havia na oferta, colocou embaixo do braço do paletó de mangas curtas, O Menino do dedo verde e, eufórico, com o lábio superior tremendo, caminhou na minha direção: “Bah tio, tu não imaginas o quanto torci pra que ninguém gostasse de ler como eu!”

O bracinho  desocupado enganchou, e então nos abraçamos. E choramos.

Seja lá o que isto signifique, sempre haverá tempo para amadurecer no  futuro!       

Autor: J.J.Camargo