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14/09/2015
A Tristeza tem Endereço

A TRISTEZA TEM ENDEREÇO                                                                                  

Na época em que a Maria Emilia foi operada, ela  trabalhava num salão de beleza há mais  de 20 anos. Soube depois que tinha sido demitida, quando a nova gerente em nome da  revisão de custos, atualização de metas e planejamento estratégico, essas expressões meio abstratas que os empresários  usam para se livrarem de empregados com mais de 50 anos, entregou-lhe o aviso prévio.  Meio perdida, pensou em montar seu próprio salão imaginando o apoio de clientes antigos, mas foi surpreendida por um convite desafiador:  trabalhar numa funerária como embelezadora de cadáveres. E então se realizou. No nosso reencontro, contou-me entusiasmada da tarefa insólita de transformar uma face de dor, desespero ou medo, em alegria, ou pelo menos serenidade.

Confessou-me que, às vezes, pressionada a devolver rapidamente o cadáver , não conseguia o efeito planejado e se frustrava, mas outras tantas, varava noites insones,  para ser compensada por um rosto tão natural e  amistoso que lhe estimulava a dialogar com o cadáver, sem cogitar que pudesse estar enlouquecendo.  Muitos artistas, como se sabe, com graus variados de excentricidade, bateram longos papos com suas obras acabadas.

O nome desse sentimento? Realização pessoal.

Em 2001, num congresso no Algarve, visitei uma aldeia de pescadores portugueses perto do hotel e conheci o João Maria, o decano da vila. Com olhos foscos por uma catarata visível, e a pele enrugada pelos 80 anos de exposição ao sol,  ele era a simpatia materializada no convívio com uma penca  de netos que o adoravam e a legião de  turistas que se acercavam para ouvir-lhes contar o trabalho que dava para construir artesanalmente a isca perfeita.  E com a boca sorridente, mas o olhar desfocado, se deixava fotografar.

Nosso  primeiro contato tinha sido superficial, a conversa entrecortada e ruidosa, deixara a sensação de desperdício. Voltei cedo no dia seguinte. Ele já estava sentado no seu trono, um banco de madeira lustrada,  dentro de um barco velho, abandonado na beira da praia. A empatia, esse sentimento que ninguém explica, foi instantânea. Conversamos muito antes que começassem a chegar os primeiros chatos  avulsos e,  ao me despedir, sabendo que eu voltaria pro Brasil no dia seguinte, presenteou-me com um conjunto completo de iscas, uma tralha enorme. Neste momento fui salvo por um dos netos que percebendo meu apuro, disse: “Vô, sinto muito, mas o Dr. não é pescador e nós não podemos abrir mão de uma das suas iscas mais perfeitas!”

Com o olho mareado,  1/3 chateado pelo presente interrompido, mas 2/3 encantado pela importância que os netos ainda lhe davam, me disse: “Desculpe Dr, mas estes miúdos, não me largam de mão. Nem sei o que será deles quando me vá!”

Chamou então a filha que montava uma tenda perto dali, para que, ao menos,  me servisse um suco. Soube por ela então, que há muito, os netos aderiram à pesca industrial, mas não tinham coragem de contar ao avô da inutilidade das suas iscas. Segredou-me também que a cara sorridente ou amarrada do pai, era o jeito dela saber o quanto tinha sido perfeito ou não, o seu trabalho  irretocável e inútil.

Aprendi com o  João Maria, um velho pescador analfabeto, que a tristeza mora naqueles espaços vazios que ficam entre as coisas feitas pela metade.

 

 

Autor: J.J. Camargo